Por Inglês de Sousa (1891)
O padre levantava-se cedo, às seis horas, lia o breviário e passava a dizer missa. Depois da missa, confessava, e ao sair, no adro, palestrava com os homens, indagando da saúde de cada um, muito cortês, dando conselhos úteis de higiene privada. Terminada a aula de religião que dava aos meninos, recolhia-se a concertar com o lorpa do Macário sacristão sobre as necessidades do culto. Jantava às quatro horas, saía a dar um breve passeio pelos arredores da vila, a espairecer, sempre sério, de olhos baixos, compenetrado do dever de dar o exemplo da sisudez e da gravidade. Voltava às seis horas, ao toque de Ave-Maria, descoberto, passeando lentamente, recolhia-se ao quarto a ler o breviário. O Macário, vitorioso e néscio, saía à porta, ardendo por dizer a toda gente que S. Rev.ma estava em casa estudando.
Os batizados e casamentos, atrasados um semestre, um ou outro enterro, achavam-no sempre pronto, nada exigente quanto a propinas, observando com afetado escrúpulo a tabela do bispado, e fechando os olhos à qualidade maçônica do padrinho, do defunto ou do nubente.
O próprio Chico Fidêncio, para o experimentar e fazer escândalo, servira de padrinho a um rapazito do Urubus.
Padre Antônio acudia com os últimos sacramentos a qualquer doente, por mais pobre e desamparado que fosse, levando-lhe o Nosso-pai com um cerimonial vistoso, ao toque dos pequenos sinos da Matriz e ao som da cantoria roufenha e monótona dos beatos, o Fonseca, o Valadão, o João Carlos e outros, que apareciam ao primeiro sinal e corriam a disputar as cruzes e as lanternas com que haviam de formar o acompanhamento. Fidêncio, envergando a opa encarnada do Santíssimo Sacramento, lá seguia atrás, de tocheiro em punho. E padre Antônio, embrulhado na capa-magna, apertando o Viático contra o peito, em atitude de unção e respeito, caminhava lentamente sob o pálio, solene e absorto, alheio ao que se passava em derredor, como um homem que consigo levava um Deus. Na frente, o Macário badalava.
Na encomendação dos finados, a sua voz simpática tinha modulações melancólicas, repassadas de infinita saudade, como se aquele morto tivesse em vida ocupado o seu coração e o seu espírito, ou como se, ante o terrível nada da morte, uma dor latente lhe mordesse o peito, fazendo sentir a nulidade da existência desse verme pretensioso que se chama o homem... Havia talvez em tal melancolia o profundo desalento de quem se sabia sujeito àquela mesma transformação hedionda da morte, apesar do apego à vida do moço de vinte e dois anos, que a filosofia tremenda do memento contrariava cruelmente... Mas o povo, fanatizado pelos homens de roupeta, não via na comoção do vigário senão mais uma prova da bondade de S. Rev.ma, do modo cabal por que sabia desempenhar os deveres do seu cargo, compenetrando-se do papel que tinha de representar. Não seria padre José, sempre alegre, barulhento, caçoador e pândego, que se mostraria assim pesaroso da morte dum seu paroquiano!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.