Por Domingos Olímpio (1903)
— Enfim – condescendeu a parteira – como você tem pressa, vou ver se, com a ajuda de Deus, posso fazer hoje alguma coisa...
— Faça, sra Rosa. É em beneficio de um pobre que já não se atreve com a cadeia...
— E tem razão. Preso nem para ganhar doce. Só d'eu pensar naquela sepultura, tapa-me o fôlego...
— Podia fazer a esmola de experimentar hoje...
— Eu tinha de servir uma dona, separada do marido, que foi para o
Amazonas e nunca mais se soube dele; nem novas, nem mandados... Ela, que esperou tanto tempo, pode esperar mais alguns dias... Vamos lá... Entra para dentro de casa ...
E conduziu Teresinha a um quarto estreito, sombrio, atravessado de frechas esguias de sol que, das fendas do telhado, iriadas de doirado pó irrequieto, o iluminavam, e marcavam no chão mornos discos pálidos. No centro, sobre uma esteira, havia um banco, envernizado pelo uso e marcado com pingos de cera. Tirou, depois, de uma velha mala, carcomida e desconjuntada, duas velas e uma pequena imagem de Santo Antônio, tão amarrado e enrolado em fitas de cores tantas, que só lhe aparecia a cabeça tonsurada e o microscópico Menino Jesus, nuzinho, sentado sobre o livro vermelho e estendendo os bracinhos para abraçar o santo.
Um gato negro, de olhos fulvos, veio lentamente, a passos tardos e preguiçosos, encolher-se perto do banco.
Dominada por secreto terror do contacto com o mistério, Teresinha acompanhava, com o olhar espantado, os preparativos. Quando a parteira acendeu as velas, que espargiram mortiça claridade no ambiente, e aspergiu os quatro cantos do quarto com uma palha benta, molhada na água do copo, colocado defronte da imagem, se sentiu aniquilada e caiu de joelhos, baixando os olhos para não encontrarem os dela, pequeninos e vivos como os do gato, a fitarem-na com insistência e energia, como se lhe perscrutassem a alma.
— Reze o Creio em Deus Padre – ordenou Rosa Veado, com voz soturna.
Enquanto a moça repetia, maquinalmente, a oração, ela murmurava o responsório, que terminou implorando a Santo Antônio, deparador do perdido àqueles que recorriam à sua intercessão junto do Trono do Altíssimo, fizesse a graça de indicar o ladrão por quem estava padecendo um inocente.
Rosa Veado saiu, então, do quarto, como um espectro, a deslizar sem ruído, e fechou a porta cautelosamente.
Teresinha ficou só no sítio de mistério e esconjúrio. Seus olhos esgazeados acompanhavam os movimentos sensuais do gato, que entrou a caminhar de um para outro lado, farejando e chamando a feiticeira com plangentes miados. Havia, no ambiente enfumarado, sombras adejantes, a atravessarem céleres, os traços luminosos das frestas, como enormes pássaros negros. Toda ela tremiam em arrepios aflitivos. Um formigueiro subia-lhe pelas pernas frias, entorpecidas. Gelado suor colava-lhe às têmporas, as loiras madeixas. Arfava-lhe o seio, angustiado por mortal compressão. Quis gritar, mas a voz esbarrou na garganta, embargada por um nó. Fixou o olhar fascinada no brilho do copo e viu se moverem nele, como em uma câmara clara, confusas figuras humanas, mulheres e homens, arrebatados por um furacão, com doidos volteios de dança macabra. Ao mesmo tempo, experimentava a impressão de alar-se do chão, sorvida pelo enorme e poderoso hausto de colossal boca invisível. Cresciam as figuras; tinham feições de pessoas conhecidas; riam com esgares ferozmente sarcásticos; envolviam-na; arrastavam-na no galope diabrino... Ela desmaiava de gozo, à deliciosa sensação de adejar no espaço, subtraída à gravitação, como um floco de nuvem, alma sem corpo.
Em plena alucinação, não perdera, todavia, os sentidos e a idéia, fixada e dominante em seu cérebro conturbado: o crime imputado a Alexandre e a infamação do castigo. As suspeitas, que lhe haviam cavado largo sulco no espírito, se acentuavam com o testemunho dos olhos, porque via, nos vultos cabriolantes em redor, autores e cúmplices do delito, indicados por Santo Antônio. O responsório produzira o apetecido efeito. Quando, entretanto, empregava enorme esforço por apreender bem os traços dos semblantes deformados por horríveis caretas, tênue fumaça, de cheiro inebriante, começou a invadir o quarto. As figuras mais se adelgaçaram, imergiram outras nos rolos vaporosos, para surgirem, depois, mais confusas, mais disformes e misturadas, até desaparecerem em treva densa.
Teresinha despertou, sacudida por forte acesso de terror, e vomitou um bolo de saliva efervescente.
As velas ardiam, lacrimejantes, ao lado do pequenino santo. De um fogareiro de barro, cheio de brasas amortecidas, subia tênue fio de fumo, cheiroso, dum azul delido. Rosa Veado, de joelhos, fitava nela os olhinhos fulvos como os do gato negro, que ressonava, então, estirado na esteira.
— Não se assuste... – observou baixinho, a feiticeira – O incenso consagrado foi-lhe aos grogomilhos...
— Vosmecê não saiu daqui?... – perguntou a moça, com voz magoada e débil, esfregando os olhos lacrimosos e congestos.
— Saí, sim. Fui buscar o fogareiro e o incenso...
— E não viu?!...
— O quê?!...
— Eles... pelo ar...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.