Por Aluísio Azevedo (1895)
A tarefa, como se vê, era mais que penosa, delicada, e de muito difícil execução; eu, porém, estava disposta a todos os sacrifícios por amor de minha filha, e haveria de triunfar! De resto, com que melhor poderia eu encher a vida? A idéia de escrever estas memórias só mais tarde começou a preocupar-me o espírito.
Mas prossigamos. Vamos ver agora como cheguei à realização dos meus ideais.
CAPÍTULO X
Na escolha mental que fiz de um noivo para minha filha, pareceu-me fosse preferível um oficial de marinha em serviço ativo, porquanto o marinheiro leva no casamento duas vantagens sobre os homens de outras profissões. A primeira porque o serviço de bordo ou em alguma fortaleza o obriga a afastar-se periodicamente da esposa, cumprindo ele assim, por dever de ofício, com o higiênico preceito da Bíblia; a segunda porque os perigos da sua vida aventurosa, a honra militar e a estética da farda, lhe dão certo brilho especial de antiburguesismo e um fascinante prestígio de altivez e denodo que muito pesam nos interesses do amor.
Nós mulheres gostamos de ver no homem amado tudo aquilo que não possuímos nem podemos aspirar. Quanto mais varonil e másculo for ele, tanto mais nos impressiona e atrai. A força física, a bravura, a energia de ação, e a singela bondade do homem forte, são os dotes masculinos que mais diretamente seduzem uma mulher bem equilibrada. Eu, que amei tanto meu marido, nunca lhe perdoei todavia, no íntimo do meu julgamento feminil, que ele fosse de compleição pouco mais desenvolvido em músculos do que eu. E não era fraco.
As mulheres ordinárias, que não desgostam de ser batidas pelo seu homem, têm a sua absolvição na mesma natureza inferior da mulher. Dar-lhes pancada é prova de falta de respeito e é brutalidade, mas não é prova de falta de amor; antes pelo contrário é essa uma das mais naturais expansões do domínio e do ciúme; e quer sempre dizer superioridade física. Ora, o que a mulher vulgar exige do seu homem não é respeito, mas só amor; logo prefere a pancada a qualquer outra manifestação menos grosseira, porém mais deprimente dos seus interesses sexuais. Devia, por conseguinte, o noivo de minha filha ser um oficial de marinha em serviço ativo, e homem forte. Mas, como a força física não basta para conquistar um amor complexo, e para manter no mesmo grau de entusiasmo o enlevo poético de uma mulher de certa ordem, era preciso que o meu oficial de marinha, além de são e possante, fosse inteligente, honesto, simpático e carinhoso.
E encontraria eu um sujeito nestas circunstâncias, capaz de amar minha filha?...
Por que não? Palmira tinha dezoito anos, era bonita e perfeita, bem educada, inteligentezinha, e com um dote animador. Seria possível que não houvesse por aí um rapaz pobre, naquelas condições, que se apaixonasse por ela, encaminhando eu as coisas com certo jeito?
Pus mãos à obra: comecei a procurar o meu homem. Em breve, porém, convenci-me de que sozinha não daria conta do recado, e lembrei-me de pedir auxílio ao meu amigo, o Dr. César Veloso, de quem já prometi falar.
Cumpra-se esta promessa antes de mais nada; César Veloso era então um belo velho de cinqüenta a sessenta anos, médico, abastado, viúvo, já sem nenhum de seus filhos, e vivendo em companhia de uma irmã, D. Etelvina, único parente que lhe restava e a quem ele estremecia profundamente. Foi o melhor coração e o melhor caráter que encontrei até hoje no meu caminho. Conheci-o, como disse, pouco depois do nascimento de Palmira, e já desde esse tempo o estimava mais do que a meu próprio esposo, de quem ele, só por minha causa, foi bom, leal e verdadeiro amigo.
Deu-se na minha vida e no meu coração uma coisa muito singular a respeito desse homem: Sem nunca formular sobre ele a mais ligeira hipótese de amor sensual, achava-me todavia tão sua amiga, amava-o tanto, que era um verdadeiro prazer, para minha alma, senti-lo perto de mim. Quando as desilusões do meu casamento me prostraram os sentidos e me enegreceram a existência, foi ele o único com quem abri o coração. Falei-lhe com toda a franqueza, queixei-me do meu destino; disse-lhe tudo quanto eu sofria, e até, ainda hoje me parece extraordinário! chorei em sua presença, o que, juro pela felicidade de Palmira, seria impossível suceder com outro, mesmo com meu marido.
Desde esse momento capital da minha vida, compreendi que era também amada por ele como a irmã eleita por sua alma e por sua inteligência. E fizemo-nos amigos para sempre, unificamo-nos em espírito, tornamo-nos moralmente inseparáveis por um tácito consórcio de absoluta confiança um pelo outro; consórcio de imperturbável harmonia de ideais, de alta poesia e de amor imaculado e superior a todas as misérias da carne. E esse amor essencial e puro, que nunca fora nem de leve perturbado pelo sobressalto dos sentidos, era um canto tranqüilo e doce, em que meu pobre espírito repousava da infernal campanha doméstica e dos enojos do outro amor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.