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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

O dono do hotel foi um desses, e, como bom cantonalista que era, não lhe podia passar despercebido que o seu misterioso hóspede usava um lenço de seda encarnada, uma gravata ainda mais encarnada que o lenço; não podia deixar de notar que nas caixinhas de fósforos do seu protegido encontrara sempre o retrato de alguns dos chefes dos cantões — encontrou o retrato do general Contreras, o de Antonio Galvez e de Duarte e o de Rafael Grulíleu.

— Não há dúvida! pensou ele. Não há dúvida que o homem é dos nossos!

E o fino estalajadeiro, considerando o modo despejado pelo qual o seu correligionário gastava ouro, notando a riqueza de suas bagagens e atentando para o incógnito em que se fechara esse homem, estrangeiro sem dúvida, mas estrangeiro amigo e respeitável, não vacilou em descobrir nele um vulto importante da causa federal, e resolveu pôr-se discretamente ao seu serviço.

— Talvez, quem sabe?... considerou o cantonalista com os seus botões. — Mais tarde, quando subirem os nossos homens, isto até me venha a render um lugar importante na política!

E foi logo ter com o Borges.

— Cidadão! disse-lhe resolutamente. Escusa negar; sei que tenho a honra de refugiar em minha casa um dos cantonalistas mais distintos do mundo!...

Borges recuou de boca aberta.

— Descanse! volveu o outro em tom de mistério. Pode ficar tranqüilo! Não tem de que temer aqui — eu sou seu correligionário.

— Mas, senhor! ... ia a protestar o Borges.

— Nem quero que me diga quais são as suas intenções — as intenções de um cantonalista são sempre as melhores!

O que eu desejo é saber em que lhe posso ser útil! Tenha confiança em mim e fale com franqueza.

E o estalajadeiro, sacando do bolso um barrete frígio, que ele possuía para as ocasiões de levantamento, meteu-o na cabeça e perfilou-se defronte do Borges.

— Bem vejo, bem vejo!... respondeu este, compreendendo a situação e hesitando, na qualidade de homem sério, se devia ou não aproveitá-la em seu favor. Bem vejo, mas...

E franziu o sobrolho. — Era o diabo! Aquilo não lhe podia ficar bem!...

— Compreendo! tornou o outro, guardando o barrete e fazendo um gesto de arrependimento. Fui indiscreto!...

— Certamente! confirmou o Borges. Imagine se, em meu lugar, estivesse aqui um inimigo!...

— Este federal é chefe com certeza de algum cantão! disse consigo o estalajadeiro. E sabe Deus qual não será a importância de sua presença por estas alturas!...

— Em todo caso... acrescentou o Borges, tomando uma resolução, não me despeço de seus favores, talvez precise deles.

E chegando-se por sua vez ao ouvido do outro, em tom de segredo:

— Preciso fazer chegar uma carta às mãos daquela senhora que...

— Já sei; de quem se trata, interrompeu o estalajadeiro. Trata-se da fidalguinha portuguesa. Bem tinha eu cá um pressentimento!... Preparai o amigo a carta, que eu a farei chegar ao seu destino, custe o que custar! E vou daqui ver mais cinco companheiros, tão bons como eu, com os quais podemos contar para a vida e para a morte!

— Obrigado, respondeu o Borges, pondo-se a jeito de escrever.

E logo que terminou a carta, chamou o seu correligionário, e entregou-lha juntamente com algumas libras esterlinas.

O cantonalista repeliu energicamente o dinheiro, dizendo frases de abnegação heróica. E, com tão boa vontade se pôs em ação, de tal modo providenciou as coisas, que pouco depois uma correspondência cerrada se estabelecia entre o Borges e a mulher.

Eram belas cartas de amor, escritas com entusiasmo de parte a parte. O marido, nas frases mais poéticas que conseguiu arranjar, suplicava à esposa que desistisse do abrigo em que se achava e fosse ter com ele ao hotel, para fugirem juntos daquela maldita cidade, que só lhes trazia canseiras e dissabores.

Filomena, porém, exigia um rapto. Estava disposta a acompanhar o marido, mas não queria ir ao encontro dele, queria que ele a fosse buscar.

"É inútil insistires", terminava a visionária, em seguida a uma exposição minuciosa do que o Borges tinha a fazer para alcançá-la.

"Se me amas, como dizes, prova-mo, arrancando-me daqui violentamente. O verdadeiro amor não conhece dificuldades! Não encontra obstáculos quando se precipita em torrentes vertiginosas de um coração apaixonado! Vem! Vem conquistar-me à força de intrepidez e coragem, vem disputar-me com o risco de tua vida e eu serei tua, eu viverei para beijar os grilhões com que me prenderes ao teu destino! Tua, F."

O Borges ficou irresoluto, coçou a cabeça, passeou longas horas com as mãos cruzadas atrás. — Faltava-lhe mais essa, resmungou furioso: — ter de perpetrar um rapto! Eu! — Diabo leve tal viagem e mais quem me meteu na cabeça a idéia de casar! Ah! que se não fosse a esperança de que as coisas não durarão neste belo gosto por muito tempo, eu... eu nem sei o que faria!...

Mas, afinal, impaciente por sair do seu esconderijo, farto daquela situação que o tornava ridículo aos seus próprios olhos, deliberou fazer a vontade à mulher.

— Já agora seria o que Deus quisesse!...

(continua...)

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