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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Um dias a esposa revoltou-se:

— Pois tu vais dar conhaque ao menino, Lourenço?! exclamou ela escandalizada.

— Deixa-o cá comigo, senhora! Eu sei o que faço!

— Olha que isso pode sufocá-lo, homem de Deus!

— Qual sufocar o quê! Por essas e outras é que, para os estrangeiros, não passamos de “uns macacos”!

A mulher que se desse ao trabalho de saber como se fazia na Europa a educação física das crianças! Queria que ela visse a criação que tiveram D. Pedro e D. Miguel! E eram príncipes! — Entendia? — eram príncipes legítimos!

E voltando-se para o filho, gritou, arregalando os olhos e soprando os bigodes, que já então se faziam cinzentos:

— Tu não queres ser um homem forte, João?! Queres ser um descendente degenerado de teus avós?!

Janjão olhou o pai com medo, e abriu a chorar.

— Aí tens o que procuravas! disse a mulher, correndo para junto do filho. — Assustar desse modo a pobre criança!

Janjão chorava mais.

— Isso! Isso é que o há de pôr pra diante! Berrou Lourenço encolerizandose. Beba já esse conhaque, menino!

— Deixa a criança! ...suplicava a mãe. — Olha como treme o pobrezinho!... o coração parece que lhe quer saltar! ...

— E tomou-o no colo.

— É melhor mesmo que leves daí esse mono! Rira-mo dos olhos! Já estou vendo a boa lesma que isso há de dar! — Mães ignorantes!..

Quando Janjão principiou a crescer, o pai levava-o a toda a parte, dava-lhe charutos, obrigava-o a tomar cerveja nos cafés. Foi, porém, uma campanha conseguir uma vez que o pequeno se assentasse por dois minutos na dela de um cavalo em que Lourenço havia chegado do seu passeio favorito a Botafogo.

Janjão, trêmulo da cabeça aos pés, agarrava-se com ambas as mãos nas crinas do animal e berrava pela mãe com toda a força de que era capaz. Tiveram de desmontá-lo para não o verem rebentar ali mesmo.

— Ora, como diabo me havia de sair este mono! Lamentava o pai desesperado. — Ninguém acreditaria que aquele choramingas era seu filho!

Não foram mais felizes com as primeiras tentativas de natação ou as primeiras experiências de atirar ao alvo: Janjão, só com a vista do mar ou a presença de um revólver , desatava a soluçar e a berrar pela mãe.

— Não! Isso agora hás de ter paciência! resmungava Lourenço.

— Tu ao menos ficarás sabendo dar um tiro! Sou eu quem to assegura!

E, com muita sutileza, comprou para o filho uma bela pistolinha de brinquedo, que estalava fulminantes, e depois uma outra, mais séria, que admitia carga de pólvora.

Janjão era, porém, cada vez mais refratário a tudo isso. Preferia ficar a um canto da sala, entretido a vestir os seus bonecos ou a fazer de cozinheiro. A mãe por esse tempo dava-lhe uma irmãzinha, que se ficou chamada Amélia, e desde aí o maior encanto do menino era tomar conta do caixão em que estava a pequerrucha toda envolvida em panos, e não consentir que as moscas lhe pousassem na moleira.

Um dia, o pai, descendo ao quintal, encontrou-o muito empenhado com o moleque a armar um oratório. Iam fazer procissão: o andor e o santo estavam prontos; uma sombrinha, enfeitada de franjas, faria as vezes de pálio.

Lourenço ficou desesperado, e com dois pontapés reduziu tudo aquilo a frangalhos.

— Era o que lhe faltava! — que o basbaque do filho, além de tudo, lhe saísse carola!

E, quando subiu, disse terminantemente à mulher que não admitia que o filho corrompesse o espírito com patacoadas daquela ordem.

— Se me constar, bradou ele ao pequeno, — que me tornas a fazer igrejinhas, racho-te de meio a meio, pedaço de uma lesma! Ora vamos a ver! Cai noutra, e terás uma sapeca que te deixe a paninhos de sal! Experimenta e verás!

Ele queria lá filhos devotos! Era só o que lhe faltava! Era só! Aquele menino parecia o seu castigo! Parecia a sua maldição!

Aos doze anos Janjão entrou para o internato de Pedro II. A princípio custoulhe bastante compreender as lições, mas, como era muito estudioso e muito paciente, os professores em breve o elogiavam. Tinham - no em boa estima pelo seu espírito católico, pela docilidade de seu gênio e pelo irrepreensível de sua conduta. João Coqueiro, de fato, fora sempre um menino sossegado, metido consigo, respeitador dos mestres e dos preceitos estabelecidos, devoto e extremamente cuidadoso de seus livros e de suas obrigações. Ninguém lhe ouvia palavra mais áspera ou gesto menos conveniente, e às vezes entrava pela hora do recreio grudado aos livros sem os querer deixar.

O pai via-o então com orgulho. Profetizava já que ali estivesse um sábio.

Tirou distinção nos primeiros exames. A mãe quase morre de alegria. Lourenço quis solenizar o acontecimento com um banquete correlativo; mas as suas condições de fortuna já não eram as mesmas; o dinheiro ia minguando de um modo assustador. Se lhe viesse a falhar uma especulação, em que se havia lançado ultimamente, como recurso extremo — Adeus! estaria tudo perdido! A ruína seria inevitável!

Fez-se a festa, não obstante, e o menino voltou aos estudos.

(continua...)

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