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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Bouflers entrou aos pulinhos. Estacou no meio do salão e fez a mais extraordinária mesura que é possível imaginar, mesmo conhecendo os complicados e genuflexórios salamaleques desse tempo galante. Os altos e empoados canudos da sua cabeleira roçaram-lhe três vezes pelos joelhos, e o rabicho, guarnecido por um laço de fita preta, três vezes se agitou no ar, como a irrequieta cauda de um cãozinho fraldiqueiro.

Vinha vestido a rigor e com extrema elegância.

Trazia uma casaca de seda cor de pérola. forrada de branco e guarnecida de botões de prata. Bofes de rendas de Veneza, nobremente salpicados de pó de tabaco espanhol, saltavam-lhe do peito por entre um colete de veludo cor de âmbar; tinha calções da mesma seda da casaca e meias bordadas a ouro, sapatos de salto vermelho, e espada, não de barba de baleia, como então alguns usavam, mas de bom e bem temperado aço de Toledo, com bainha de couro, forrada de veludo branco, e guarda coberta de vistosa pedraria multicor.

Deu alguns passos para Alzira, e, assim que se viu defronte dela, perfilou-se de novo e pôs a mão esquerda sobre o punho da espada, de modo a arrebitar com a ponta desta a grande aba da sua casaca à la Ramponeau.

E, empertigado, conservou-se um instante com o chapéu de três bicos debaixo do braço, e disse depois fazendo um passo de minuete:

"Ora graças a Cupido,

Neste empíreo da beleza

Enfim me foi permitido

Entrar, sem maior

despesa!..."

— Trazia a musa em sua companhia Bouflers?... Nesse caso devia ter pedido licença para dois... —Descanse, formosa estrela; minha musa é rapariga discreta... não contará ao marquês o que entre nós dois se passar aqui... — Discreta?... — Não diz mal de ninguém... — Informe a pobre senhora de Dufort... — Uma sátira inocente... — Oh! muito inocente! ... — Tão inocente como o padre Ângelo. — Ah! Já o conhece?... — Pudera!

E, armando de novo a sua coreográfica mesura, improvisou:

"Dizem que Paris

inteira,

Após o célebre sermão

Da sagrada quinta-feira,

Anda toda em

devoção...

Traz no peito as mãos cruzadas, Os olhos fitos no céu, Calça meias encarnadas, Põe estola e solidéu!

Até consta que a

marquesa

De Pompadour vai além;

Quer obrigar sua alteza

A tomar ordens

também..."

E, chegando-se mais para Alzira, segredou intencionalmente:

"Que certa moça galante, Ouvindo a missa, fitou Por tal modo o celebrante, Que o celebrante... corou!

E ficaria engasgado

Com o próprio corpo de

Deus,

Se não bebesse, coitado!

Duas gotas de Bordéus..."

— Isto é uma sensaboria de mau gosto!... declarou a condessa.

— Por que? Dar-se-á o caso de que a insensível e tirana condessa Alzira também esteja com o peito ferido pelo casto pregador de quinta-feira?...

— Como "também"?... Há então muitas que o estejam?

— Oh! Oh!

"Foi o caso que o sujeito,

Tendo as damas convertido,

Tanto as fez bater no peito,

Que o peito lhes pós ferido!..."

— Fale antes em prosa Bouflers! O verso fatiga muito.

— Pois seja! exclamou ele, encaminhando-se para a condessa com um belo sorriso de namorado, e disse tomando-lhe uma das mãos que levou aos lábios: Eu

te amo, Alzira, flor insensível! flor dos meus sonhos! flor das minhas desventuras! e quero saber quando será o dia venturoso em que receba eu de tua formosa boquinha ...

— Um sorriso?...

— Não! Uma palavra de animação...

— Bravo!

— Bravo?!

— Não conheço melhor palavra de animação...

— Não zombe de mim, condessa!...

— Zombar de Bouflers!... Oh!... Se o conseguisse, vingaria meia humanidade, tão ferozmente satirizada pelos seus versos maus e pelos seus maus versos!

— Conclua-se destes trocadilhos, que sairei daqui sem ouvir uma palavra de esperança...

— Está falando sério, meu pobre amigo?...

— Juro-lhe que sim, condessa. Juro-lhe pelas musas, que a minha maior felicidade seria merecer-lhe uma palavra de amor...

— E por que razão havia eu de amá-lo?...

— Ora essa! Por que razão é que os outros se amam? ...

— Mulheres da minha espécie, caro poeta, só amam, quando as fascina qualquer cousa extraordinária, muito extraordinária! Seja o que for, mas que seja— extraordinária!

— Paciência!... Todavia, quero crer que o marquês de Florans nada tem em si de extraordinário, e no entanto...

— É meu amante... Ah! O caso é outro! O marquês é muito rico... pode dar-se a esse luxo!... Ama-me, daí porém a ser amado—vai um abismo! — Se o marquês a ouvisse?...

Alzira sacudiu os ombros.

— Ele sabe disso tão bem como eu; a ninguém engano! ...

— Nem ama, tampouco!

— Quem sabe lá?... Talvez...

— A condessa? Qual! Duvido! A senhora não é mulher! Não tem coração!...

— Então que sou eu?...

— E um lindo cofre de marfim rosado, com o competente orifício para receber o ouro dos papalvos.

— E era para dizer-me semelhante galanteria, que o poeta há tanto tempo fazia empenho de vir à minha casa?

— Não! Era na esperança de ser correspondido no meu amor...

— O cavalheiro às vezes não me parece um homem de espírito...

— Em questões de amor todos os homens são igualmente estúpidos!...

(continua...)

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