Por Visconde de Taunay (1871)
Dera-se uma peça ao corpo de caçadores, que ainda formava a vanguarda; o 17.° batalhão, dos voluntários de Minas, que também tinha um canhão, compunha a retaguarda. No centro, o 20.° batalhão e o 21.o, cada qual com a sua boca de fogo, escoltavam, à direita e à esquerda, a bagagem flanqueada de duas filas de carretas puxadas por bois. O conjunto desta massa movediça parecia um grande quadrado que, em cada face, tinha um menor diante de si; judiciosa formatura para nos proteger das cargas de cavalaria; porquanto podiam as quatro frentes ser varridas pelo fogo cruzado de nossa infantaria. Enfim, para maior segurança, linhas de atiradores circulavam em torno do corpo do exército. Desde este primeiro dia verificou-se quão vantajosa era tal disposição porquanto estava a cavalaria inimiga, por toda a parte, em torno de nós: à frente, sobre os flancos; atrás, ora longe, ora quase a nos tocar. Nossos soldados, marchando sempre, afastavam-na por meio de descargas, freqüentes, e tanto mais profícuas quanto ao resultado quanto mais se aproximavam os paraguaios. Algumas de suas balas também atravessavam as nossas fileiras, mas sem grande dano pela incerteza do tiro disparado a galope. Entretanto, acabaram as balas de artilharia por visitar-nos.
Atravessávamos, então, o terreno lamacento, fundo, de planície cortada de estreitas esplanadas, paralelos umas às outras, e uma peça paraguaia de 3, sucessivamente assestada nestes pontos, abriu fogo contra nós; mas, ou porque a sorte neste particular ao menos nos favorecesse, ou graças à inexperiência dos artilheiros inimigos, iam-lhe os projetis enterrar-se na lama que nos rodeava; ou, então, os menos inofensivos caiam no meio do nosso gado com mais estrépito do que prejuízo.
Os nossos soldados, cuja primeira impressão fora bastante viva, não tardaram a rir do que viam e até as próprias mulheres acharam nisto assunto de mofa comparando estas balas, que faziam repuxar a água, aos limões-de-cheiro do velho carnaval brasileiro. Demais tínhamos boa réplica á "palavra do bronze"; da linguagem imaginosa do velho Lopes.
Ainda neste dia não desmentiu a nossa artilharia sua superioridade. As nossas peças raiadas de calibre 4, La Hitter, bem assentes, perfeitamente sólidas, eram manobradas, com a maior regularidade, por suas guarnições que, desde o Taboco, com elas se exercitavam. Havia entre elas bons artilheiros. É preciso acrescentar os nossos oficiais da arma de artilharia, tão hábeis quanto bravos, todos dignos êmulos uns dos outros, cada qual se esforçava por melhor manobrá-las: João Tomás Cantuária, Marques da Cruz, Napoleão Freire e Nobre Gusmão. Tal porfia sobremodo interessava aos soldados, incutindo-lhes ardor novo cada tiro que bufam ao seu artilheiro predileto. Assim caminhamos dia todo num caos de fumaça e poeira, com grande trépido, e no meio das aclamações dos nossos, de agudos e ferozes do inimigo, mugidos do gado, da pólvora, desordem dos homens e das coisas.
Declinava o Sol quando percebemos distintamente morro da Margarida, o mesmo que já de outro ponto observáramos do forte de Bela Vista, marco de reconhecimento que desta vez nos brilhou aos olhos com um raio de esperança. Fizéramos duas e meia léguas sob o fogo continuo e cansativo, muito embora pouco mortífero.
A mata da margem do Apa-Mi nós a escolhêramos para o pouso daquela noite. Íamos atingi-la quando verificamos que a bateria montada dos paraguaios desde muito se adiantara pela esquerda, achando-se agora postada em frente à nossa vanguarda. Varriam suas balas a margem onde íamos ficar encurralados, pois havia pouco fora destruída a ponte ali existente. Era tempo que os nossos canhões, penosamente arrastados até o alto da eminência aposta à que o inimigo ocupava, começassem a fazer-se ouvir. Não tardaram a obrigar que os paraguaios, cuja peça de 3 foi até desmontada, calassem o fogo.
Este combate, que pôs termo ás refregas do dia, não durou menos de uma hora. Não foram consideráveis as nossas perdas, um morto apenas e alguns feridos. Podíamos, pois, considerar como vantagem as provas que de sua firmeza, a proteger a bateria, nos dera o 20.° batalhão. Pareceu-nos o fogo paraguaio melhor dirigido do que até então, mas nossa gente não arredou pé. Eram, entretanto, simples recrutas valetudinários, saídos de Goiás, verdade é que comandados por valente oficial, o capitão Ferreira de Paiva. Ficamos sabendo o que podíamos esperar da coragem e da abnegação de todos para o resto da retirada. Neste ínterim, os membros da comissão de engenheiros estabeleciam a ponte. Trabalharam rapidamente, sob as vistas do comandante. Cumprimentou-os pelo serviço e foi o primeiro a passar. Todo o resto da coluna o acompanhou sem maior detença e veio acampar à margem direita do Apa-Mi. Mas já patrulhas de cavalaria paraguaia, que haviam atravessado o rio, a jusante de nós, estavam a observar-nos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.