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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

Liberato refletiu maduramente sobre este grande assunto, e a cabo de três dias tomou a resolução que lhe pareceu melhor. Não se contava na distancia de três, ou quatro, ou dez, vinte léguas da povoação um só proprietário, lavrador, foreiro, almocreve ou morador que não tivesse queixas dos malfeitores, especialmente do Cabeleira que a todos excedia na petulância e fereza. Aqueles a quem faltavam motivos de ofensa pessoal tinham razão de sobra para quererem a dissolução do couto nas ofensas feitas pelos facinorosos aos parentes e amigos. Só uma população cansada de lutas sanguinolentas, e um governo que cuidava menos de proteger eficazmente a propriedade e a vida na colônia do que de adquirir grossas rendas para a metrópole, e riquezas para si próprio, poderiam sofrer bandos de sicários que, assim fortificados ao pé das famílias, roubavam impunemente bens, honra e vida.

Liberato entendeu se com três ou quatro dos vizinhos mais próximos, e depois de lhes haver dado parte do golpe de que fora vítima na pessoa de seu irmão, propôs lhe coligarem todas suas forças para tentarem a expulsão dos malfeitores. Não obstante haver por essa ocasião recordado os danos irreparáveis que a cada um desses vizinhos tinham eles ocasionado, não houve um só que estivesse pela proposta do negro, tal era o terror de que todos se achavam penetrados.

Nenhum queria arriscar se a pagar com a vida semelhante ousadia aconselhada aliás pelo instinto da própria conservação.

Liberato voltou a casa triste e desanimado, mas não dissuadido de tentar o assalto, único meio que se lhe oferecia de vingar se dos assassinos de Gabriel, e libertar se do violento imposto que sobre sua fraca fortuna, já muito depauperada, os malvados faziam pesar sem tréguas nem piedade.

Concertou seu plano consigo mesmo debaixo de rigoroso sigilo. Na tarde seguinte, com o pretexto de tirar uma abelha e encovar tatus, encaminhou se para a mata, acompanhado de seus dois filhos Ricardo e Sebastião, e de seu genro Vicente, todos apercebidos com espingardas, facões e chuços.

Conhecia algumas das veredas que levavam ao covil. Acostumados a verem nele uma vítima paciente de que mais tinham que tirar do que temer, não cuidaram os malfeitores em ocultar lhe essas veredas. Liberato e os seus embocaram por uma delas sem hesitações nem temores, perfeitamente senhores de si e conhecedores do terreno onde pisavam.

Antes de chegarem ao rancho foram pressentidos. A vereda, antes picada aberta a machado, era estreita, e passava por um embastido de árvores colossais, que formavam natural estacada, impossível de romper.

Liberato sabia o perigo a que se expunha com este passo. Estava, porém, disposto a dar aos malvados uma lição de mestre, ainda que lhe custasse a própria vida, desmoralizando, quando outro sucesso não pudesse obter, o fatal valhacouto.

Ainda bem não tinham chegado ao ponto em que a picada se bifurcava, quando ouviram um assobio que repercutiu com estranho som na profunda selva.

— Ah ! — disse Liberato aos seus — perdemos a diligência. Estão prevenidos e esperam por nós.

Ele não se enganava. Um dos moradores a quem convidara para o assalto, pondo se em secreta inteligência com um dos criminosos, delatara por medo a intenção de Liberato. Dupla cobardia, tanto mais digna de ser execrada quanto foi parte para que viessem a dar se lamentáveis cenas!

Posto que logo conhecesse que não havia salvação possível para nenhum deles, Liberato, não querendo dar o braço a torcer, prosseguiu com firmeza em sua marcha como se nada houvesse.

Pouco adiante, a vereda estava completamente tomada por grossos troncos ligados às árvores paralelas por fortíssimos cipós.

— Estamos encurralados — disse ele com serenidade. — Melhor um pouco; havemos de bater nos a faca e a chuço.

Voltemos, já que não podemos aqui avançar. Cada qual trate de matar para não morrer.

— Não podemos abrir caminho através destes paus ? — perguntou Sebastião.

— De que modo ? E impossível — respondeu Liberato.

— Só se nós trepássemos, e fôssemos saltando de galho em galho até deixarmos atrás de nós a estacada — lembrou Ricardo.

— Eles nos deixariam fazer isto ? — observou Vicente.

Mal tinham acabado estas palavras quando uma descarga da trincheira, deitando por terra o genro de Liberato, veio anunciar lhes que para eles tudo estava acabado.

Afastarem se da trincheira para ficarem ao abrigo de seus traiçoeiros tiros foi a primeira coisa em que todos entenderam.

— Cobardes ! — exclamou Liberato com raiva concentrada. — Têm gente como farinha, e encurralam quatro homens que eles não se animam a bater em campo aberto. Onde está a valentia destes ladrões que são satisfeitos com o que me furtam, mataram meu irmão para lhe roubarem seu único bem ?

Depois de se haverem alongado alguns passos mais da trincheira onde reinou logo profundo silêncio, perceberam que os inimigos vinham a seu encontro para lhes embargar a saída. Achavam se deste modo os assaltantes entre a espada e a parede.

Era medonha a escuridão dentro da mata.

(continua...)

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