Por Bernardo Guimarães (1872)
-tranqüilize-se, meu pai- disse ela com tom firme e resoluto, enxugando a última lágrima que lhe brotava dos olhos; aceito o marido que me quer dar, já que assim é preciso para felicidade sua e de minha irmã.
- O céu te abençoe, querida filha; nem eu esperava outra coisa da bondade de teu coração e da nobreza de teus sentimentos. Não te arrependerás, eu te asseguro: Leonel é um excelente moço, que saberá fazer-te feliz, e Deus abençoará teu casamento, porque o mereces.
-serei feliz! . . . por certo! . . . -murmurou Lúcia consigo; ao menos abreviarei o meu martírio.
- Posso, portanto, Lúcia- continuou o Major- assegurar desde hoje ao senhor Leonel que dás o teu consentimento? . . .
-meu pai tem a minha palavra, e de hoje em diante pode dispor de mim, como lhe aprouver.
O pai saiu satisfeitíssimo com o resultado desta última tentativa, porque não sabia medir o alcance e a importância do cruel e doloroso sacrifício que acabava de impor a sua filha. Homem de alma fria, posto que boa, julgava que as paixões sinceras e profundas não existem senão nas novelas, e que os sentimentos da mulher não são mais do que caprichos da imaginação, que com o tempo se desvanecem.
Lúcia, acabrunhada sob o peso do sacrifício a que acabava de dedicar-se para a felicidade de seu pai e de sua irmã, foi sentar-se junto a uma mesa, e escondendo a cabeça entre os dois lindos braços nus, aí ficou por muito tempo abandonando o coração aos golpes da dor que o torturava.
A voz de Joana veio despertá-la.
- Sinhazinha, aqui está isto, que lhe mandaram entregar.
Lúcia levantou a cabeça e fitou em Joana os olhos úmidos de lágrimas. Joana entregou-lhe uma carta; Lúcia tomou- a, reparou no sobrescrito e um rápido estremecimento convulsivo lhe percorreu o corpo. Rasgou com a mão trêmula a carta e leu o seguinte:
“Minha Lúcia. Cá de longe, a mais de duzentas léguas de distância, participo do prazer que sentirás ao ler esta carta, pois nem um momento ainda duvidei da sinceridade e constância do teu amor. A fortuna, que aí sempre se me mostrou esquiva, sorriu-me aqui no Sincorá. Graças a Deus, tenho feito excelentes negócios. Enfim, Lúcia, já sou rico, ao menos para nossa terra. Não me é possível estar lá no prazo que te marquei, mas faço-te esta para tranqüilizar-te. Em breve lá estarei. Eu quisera ter asas e voar para junto de ti. . . Sou feliz, só as saudades me atormentam. Adeus, Lúcia; até breve. Teu Elias”.
Descrever o que se passava na alma de Lúcia, enquanto com mão trêmula e olhar desvairado percorria esta carta, é coisa que não cabe no possível. Uma vertigem se apoderou dela; apenas teve tempo para amarrotar depressa aquela carta fatal e esconde-la no seio. De pálida que estava, tornou-se lívida, os olhos se lhe escureceram, e teria caído da cadeira em que estava, se Joana, que ficara ao pé dela, não a tivesse amparado.
- Santa Virgem! exclamou assustada a rapariga, sacudindo- ªQue tem! que tem, sinhazinha? . . .
mas Lúcia ainda não tinha perdido o vigor de sua bela organização, e em poucos instantes voltou daquele breve delíquio.
- O que é isto, menina? . . . o que é que está sofrendo? . . . fale, não oculte nada à sua negra, exclamou a solícita escrava. Eu vou falar com nhonhô para mandar chamar médico.
- Não, Joana, não é preciso; não digas nada a meu pai, eu te peço. Isto passa já; foi uma vertigem, porque passei mal a noite; mas já estou melhor.
Ah! por que não chegou uma hora mais cedo aquela carta fatal? teria sido redenção daquela pobre alma que penava entre horrorosos martírios; teria aberto para ela um horizonte de esperanças e venturas. Mas naquela ocasião era como nuvem negra que acabava de escurecer para sempre o horizonte de seu porvir.
VIII - ELIAS
O infortúnio de Lúcia tinha chegado a seu cúmulo.
O seu casamento com Leonel estava definitivamente contratado, e era o acontecimento de que se falava mais na bagagem em todos os círculos. Era um lindo par, dois noivos em todos os sentidos dignos um do outro, e todos formavam a mais lisonjeira idéia do risonho futuro de amor e de ventura, cujas portas o himeneu ia abrir de par em par àquele par afortunado.
Os pretendentes de Lúcia, porém, que haviam sido preteridos- e não eram poucos- vingaram-se em ápodos e maliciosas apreciações a respeito do noivo.
- Pobre moça! Deus sabe o que será dela com aquele boneco enfeitado! Deus queira que ali não esteja encoberto um formidável cavalheiro de indústria!
- A fazenda de contrabando é quase sempre a mais bem enfardada. Aquele Major é bem simplório. Não seria eu que daria minha filha a um homem só porque anda com grandes equipagens e patacoadas, inculcando-se rico, sem lhe ver a carteira.
- Às vezes um biltre, desses que aí andam com ares de grão-senhor, não passa de um mero cobrador, que nada tem de seu, e anda a imposturar com o dinheiro do patrão.
- Lá diz o ditado: quem vai casar longe, ou quer enganar, ou vai enganado. Este melro, porém, que não cai no laço, é capaz de enfiar o Major e toda a sua geração pelo fundo de uma agulha. Lá se avenham.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.