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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Logo que Gonçalo se achou fora de perigo e algum tanto restabelecido de suas forças, foi conduzido pela gentil Guaraciaba à presença do velho chefe, para narrar-lhe suas aventuras. Junto à margem do rio, à sombra de uma colossal figueira silvestre, achava-se sentado o velho cacique rodeado de alguns guerreiros veteranos, com os quais se comprazia em rememorar as façanhas das eras de outrora, e com essas lembranças do passado sua alma se expandia como o velho e carcomido tronco da floresta já sem seiva nem folhagem, cujo calvo tope se enrama de viçosas parasitas e floridas trepadeiras. Gonçalo se assentou no meio deles; servia-lhe de assento a saliência de uma das enormes raízes do tronco. A mimosa filha de Oriçanga apresentou a cada um dos circunstantes um vaso de cauim, e um cachimbo aceso, que circulou de boca em boca, em sinal de paz e boa amizade. Assentada sobre a relva a alguns passos em frente de Gonçalo, com os pés encruzados, o braço pousado sobre os joelhos e a face sobre a mão, Guaraciaba, que nesse momento oferecia à estatuária o mais original e gracioso modelo, estava pronta a escutar com a maior atenção e infantil curiosidade.

— Estrangeiro, diz Oriçanga, quem quer que tu sejas, ou descendas do sangue maldito do imboaba, ou tenhas nascido neste país que Tupá abençoou, já que o céu te fez cair em nosso poder, és nosso escravo, e faremos de ti o que nos aprouver. Mas diz alguém que não pertences à raça detestada de nossos perseguidores, e que as tuas tristes aventuras obrigam-te a vaguear pelas selvas foragido sem taba e sem manitós. Conta-nos pois com espírito de verdade a história de teus infortúnios, e à vista dela veremos qual a sorte que mereces.

Gonçalo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela a história dos acontecimentos de sua vida , já tinha fantasiado em seu espírito a narração que devia fazer ao velho cacique. Não lhe era preciso inventar muitas fábulas, mas somente disfarçar certas circunstâncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas e lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante a sua narração. Assim pois misturando às vezes a história real de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas fábulas por ele mesmo ideadas, disse que pertencia à bela e formidável tribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regiões banhadas pelos rios Paraná e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens por seu grande valor e poderio. Esse cacique à testa de seus valentes guerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de seu país natal com a rapidez do tufão, e causavam estragos e devastações imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem se tinham tornado implacáveis inimigos. Enfim, depois de uma guerra desastrosa, ele, seu pai e toda a sua família tinham caído prisioneiros em poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goiás, onde foram vendidos e longo tempo gemeram vítimas de bárbaro e violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos e excessivos trabalhos. Enfim crescendo em forças e idade, e não podendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravidão, conseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido entre os Coroados, que habitavam essas regiões, em breve adquiriu a estima e apreço dos principais da tribo, que o escolheram para comandar uma expedição que tinha de marchar a exercer vinganças e depredações nas povoações dos imboabas. Aproveitou-se com sofreguidão dessa ocasião para vingar a morte de seu pai, matando com a própria mão o seu algoz e reduzindo a cinzas suas fazendas. Em muitas outras ocasiões teve de prestar os mais importantes serviços aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra, quer ensinando-lhes diversos ofícios e artes, que aprendera durante o seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas e mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destruía. Mas enfim seus próprios feitos e serviços suscitaramlhe uma multidão de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos, que tinham ciúme do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre eles. Seus rivais não ousavam guerreá-lo abertamente, mas urdiam-lhe ciladas de todo o gênero, e moviam-lhe uma perseguição traiçoeira, à qual teria inevitavelmente sucumbido, se não tivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida à mercê da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido até

ali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer canto do mundo. Chegando àquelas paragens eles Chavantes tomando-o por um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado tão bruscamente e com tal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarniçamento até o último trance.

(continua...)

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