Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
A obra concluiu-se. Mas, ou porque na execução dela se abalassem as paredes da ermida contígua, ou porque construída esta em terreno pouco sólido, não pudesse ter longa duração, certo é que não muito depois sobreveio uma horrível catástrofe, que teve conseqüências funestas.
Um dia, celebravam os carmelitas uma solenidade religiosa, a ermida estava cheia de devotos, e eis que de repente estala o teto que as paredes abandonam, e estas e aquele caem, abatem e esmagam um crescido número de indivíduos.
Este fatal acontecimento explicava-se fácil e satisfatoriamente por alguma das duas hipóteses que há pouco estabeleci. O povo porém, que é poeta, embora não escreva linhas medidas, prefere quase sempre o sobrenatural ao real, e em matéria de explicações costuma pedi-las antes à imaginação do que à razão.
Um do povo inventou ou sonhou, alguns aperfeiçoaram o invento ou o sonho, e muitos acreditaram e foram transmitindo de pais a filhos e de filhos a netos uma segunda tradição a respeito da ermida de Nossa Senhora do Ó.
Eis aqui, pouco mais ou menos, o que diz a tradição popular.
O ermitão que levantara aquela igrejinha e a triste viúva que doara o terreno descansavam desde seis anos em suas sepulturas, no seio dela. Mas suas almas, penando ainda no mundo, velavam a horas mortas da noite à porta da ermida.
O ermitão e a viúva, como se ajustados estivessem para deixar iguais disposições, tinham recomendado em seus testamentos que durante sete anos, no aniversário de sua morte, se acendesse uma vela em suas sepulturas e se dissessem três missas por suas almas.
Seis anos haviam já passado.
Os carmelitas faziam construir com ardor e esmero o seu convento, que estava a ponto de terminar-se, e no entanto, pretendiam alguns homens das vizinhanças que à meia-noite ouviam-se ali gemidos pungentes, e diziam que eram as almas do ermitão e da viúva que lamentavam, sem dúvida, que os frades que cuidavam tanto em preparar excelente casa para sua vivenda esquecessem o teto sagrado, a ermida que ameaçava ruína.
Aqueles gemidos eram lúgubres presságios.
Sinistras previsões eram murmuradas a medo por alguns, e uma boa velha que passava por viver vida santa afirmava, tremendo, que não tinha ainda acontecido uma grande desgraça na ermida, porque a Senhora do Ó esperava primeiro ver passar o sétimo aniversário da morte do ermitão e da viúva.
E o dia daquele sétimo aniversário chegou, e aconteceu que também nesse dia teve de celebrar-se uma solenidade pomposa na ermida.
A festa não impediu que se acendesse uma vela sobre a sepultura do ermitão e outra sobre a sepultura da viúva, que eram na nave da ermida.
As missas, porém, que deviam ser não menos de seis, tiveram de ser ditas em um altar que havia no consistório da pequena igreja.
A festa começara. As missas continuavam e as velas ardiam.
Enfim, a sexta, a derradeira missa chegou ao seu termo, e quando no altar do consistório o celebrante pronunciou a última palavra, na nave da capela apagaram-se, de súbito e por si mesmas, as velas das sepulturas, e imediatamente a ermida abateu e desabaram todas as suas paredes.
Aqui termina a tradição, que julguei não dever desprezar, embora seja eu o primeiro a negar-lhe crédito.
Livre da tradição popular, que perturba um pouco ou mesmo muito a verdade da história, prossigo desafrontado na fiel narração dos fatos.
Sobre as ruínas da ermida de Nossa Senhora do Ó, construíram os carmelitas um templo que se mostrou em harmonia com as proporções do seu convento. Essa igreja, porém, foi ainda reedificada, começando as obras da reedificação no ano de 1761, no tempo do ilustre conde de Bobadela.
O nosso afamado mestre Valentim, o artista que era grande naquela época, e que grande seria também na atualidade, concorreu com o seu imenso talento para a renovação e embelezamento da igreja dos carmelitas.
É justo não esquecer que nenhuma destas mudanças e construções fez pôr de lado a antiga devoção de Nossa Senhora do Ó, que, aliás, continuou sempre a ser profundamente venerada na igreja que substituíra a sua ermida.
Nada mais me ocorre agora para dizer acerca da história antiga do convento do Carmo, que desde 1808 faz parte do palácio imperial.
Farei, porém, um protesto, antes de concluir.
Talvez alguém há que me lance em rosto o haver misturado com a narração de fatos autenticados nas nossas memórias históricas duas tradições populares, que, aliás, se reduzem a uma única, e que evidentemente pecam por inverossímeis e por falta de fundamento.
Mas, tradições como essas abundam nas arquivos da imaginação e da credulidade de todos os povos, e encontram-se em todas as nações.
Que mal faz perpetuá-las? São as poesias do povo, os velhos amam-nas, os meninos as aprendem de cor, os poetas as escutam cobiçosos, a terra da pátria se enfeita com elas.
Terei ainda de referir mais algumas, e destas, a maior parte colherei muito conscienciosamente nas páginas dos anais mais sérios e áridos que possuímos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.