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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

A despeito das suas esperanças, Clemência estava um pouco receiosa ; Violante porém confiava na sua boa fortuna.

— Já tomou a sua resolução, minha tia ?...

— Caso-me decididamente, respondeu Violante, rindo.

— E qual dos tres prefere ?...

— Na questão de preferencia é que está o meu unico embaraço : creio que o melhor dos tres é o doutor...

Entrou n'esse momento um escravo na sala e entregou umac arta a Violante

— Vê o que contem esta carta, disse a velha á sobrinha. Clemência abrio e leu sem hesitar :

« Minha senhora. — Com o mais profundo pezar e cedendo a circumstancias com que não contava, sou obrigado a desistir das minhas pretenções á mão de V. Ex. Não podendo ser o esposo, será sempre o mais obediente escravo de V. Ex.

— O Dr. Ambrosio.

— E esta! ..exclamou Violante, tomado a carta da mão de Clemência e lendo-a quasi com incredulidade.

— É um de menos, minha tia : mas ainda lhe ficão dous.

— Sim, e preferirei o negociante que me há de augmentar a fortuna.

O escravo entrou outra vez com uma segunda carta.

Violante não deu mais a carta á sobrinha: abrio-a e leu : era do Sr. Antônio, e dizia pouco mais ou menos o mesmo que dissera na sua o Dr. Ambrosio.

A velha não pronunciou uma unica palavra : poz-se a arranjar a touca eos óculos.

— Lá se foi o segundo ! mas ainda bem que ainda lhe resta um ; observou Clemência.

— Sim... o peior de todos... o jogador que esbanjaria a minha fortuna em poucos mezes :

está visto que esse não me voltará as costas... e...

E o escravo entrou na sala pela terceira vez, trazendo uma terceira carta.

— Lê... lê, Clemência, porque eu não acreditaria nos meus oculos.

Clemência abrio a carta e leu : tal e qual como as duas primeiras, essa continha uma despedida formal e as desculpas de Claudiano.

— Todos tres!... exclamou a velha ; todos tres!... mas é inacreditavel!...

— Minha tia, a verdade não é sempre verosimil.

— Porém todos tres !... ah ! sim... adivinho

— Adivinha o que ?...

— N'estes ultimos tres dias os calculistas descobrirão uma velha mais rica do que eu sou.

Clemência desatou a rir.

— De que ris ?...

— Da sua derrota, minha tia.

— Tu porém não venceste ..

— Quem sabe ?...

— Falia.

— Ainda é cedo: o seu dia foi hoje, segundafeira : o meu é amanhã, terça-feira.

— Mas então que faremos hoje ?. .

— Jantaremos sós, minha tia.

Não é preciso dizer que Violante foi bem cedo apresentar-se no dia seguinte na casa de seu irmão, que aliás a deixou só com Clemência sahindo a cumprir o seu dever de empregado publico.

A velha nem um só instante nutrira a idéa de casar-se : pretendeu dar uma lição á sobrinha; agora porém estava realmente curiosa para ter a explicação da sua derrota.

Apenas se achou a sós com a sobrinha, apertou-a para que lhe fizesse comprehender a deserção inesperada dos tres calculistas.

— Ao meio-dia saberá tudo, respondeu Clemência.

— Mas até o meio-dia que faremos ?...

— Vossa mercê já leu os jornaes de hoje ?

— Eu não perco tempo lendo jornaes, menina.

— Pois faz mal, ás vezes acha-se a explicação de muitos factos.

— Que queres dizer ?...

— Nada, minha tia.

— Mas eu ardo de impaciencia...

— Porque ?...

— Porque não admitto que falhasse o meu principio.

— Qual?...

— O do poder do dinheiro na epoca actual.

— Pois socegue, não falhou.

— Então é certo que os tres calculistas descobrirão outra velha mais rica do que eu !...

— Não, senhora.

— N'esse caso falla...

— Ainda não... mas... está dando meio-dia ; não ouve ?...

— O que ? os sinos a darem meio-dia ?...

— Não : o rodar das carruagens que párão.

— E então ?

— São elles.

— Elles quem ?

— Os tres calculistas, sem duvida.

— Os tres !... e tu pensas...

— Que elles vem pedir-me em casamento.

— Tal e qual como aconteceu comigo ?...

— Com uma unica differença... disse Clemência rindo.

— E qual é ella ? perguntou a velha.

— E que eu não mandei preparar um banquete para offerecel-o aos meus pretendentes.

Com effeito, o Sr. Antônio, o Dr. Ambrosio, e Claudiano tinhão ao mesmo tempo feito parar á porta da casa do pai de Clemência as carruagens em que vinhão, encontrando-se na mesma escada.

— É celebre ! disse Antônio.

— É incrivel ! disse Ambrosio.

— É inaudito ! disse Claudiano.

apresentárão-se na sala já um pouco desapontados, e ainda mais o ficarão esbarrando com Violante, que os cumprimentou com ar sinistro, e emfim perdêrão-se de todo, vendo um sorriso malicioso brincando nos labios de Clemência.

— Meus Senhores, disse a moça, meu pai não se acha em casa ; mas eu posso ouvir e responder ás proposições que me quizerem fazer.

— Hão de ser curiosas ! observou a velha.

Os tres calculistas, fallando cada um por sua vez, disserão, como de costume, absolutamente a mesma cousa. Vinhão todos pedir Clemência em casamento, e cada qual animado por uma doce esperança que ella deixara accender-se em seu coração.

(continua...)

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