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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  - Coitado do cotó! Ainda está muito magricela?... disse a menina com um carinho compassivo. 

 E tirou do saco meia dúzia de espigas de milho, que o animal devorou com uma gana de convalescência. 

  Debulhado o último sabugo, farejou o burro o saco, donde se escapavam umas exalações que lhe pruiam agradavelmente o olfato. 

  Rindo, outra vez meteu Berta a mão no seu inesgotável saco e trouxe um punhado de farinha que o burro lambeu-lhe das palmas. Dando então um ligeiro tapa na belfa do animal, deitou a correr pelo campo fora seguindo a mesma vereda. 

Atrás de um fraguedo, cuja fralda atravessava o leito do rio, abrolhando-lhe a corrente, existia naquele tempo uma casa em ruína. Já tinha desabado metade da parede do sótão e o telhado abatia aos poucos, rompendo os caibros podres. 

  Da cozinha, que ainda se conservava em bom estado, com exceção da porta já tombada ao chão pela ferrugem das dobradiças, saía um som roufenho e soturno, como o grunhido de um porco. Acocorada a um canto, com o queixo sobre os cotovelos fincados ao peito cerrando a cara, descobria-se uma criatura humana, dobrada sobre si a modo de trouxa. 

  Era uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e que resmoneava, batendo a cabeça com um movimento oscilatório semelhante ao do calangro. De tempo em tempo desdobrava um dos braços descarnados, insinuava ligeiramente a mão pela espádua, e fazia menção de matar uma pulga que imaginava ter presa entre o polegar e o indicador. 

  Havia algum tempo já que Berta parara à porta da cozinha, sem que a estranha criatura desse o menor sinal de a ter percebido. 

  - Zana! disse afinal a menina. 

  Estremeceu a negra, e pôs-se a escuta daquela voz, como se viesse de longe, de bem longe, e só mui de leve lhe ferisse as ouças. Não se repetindo o chamado, voltou à primeira posição e continuou a resmonear, abanar a cabeça coberta de uma carapinha grisalha da cor de lã churra do carneiro. 

  Entretanto Berta aproximou-se de uma prateleira que havia na parede, junto ao fogão, para esvaziar ali o resto do saco. No velho alguidar esborcinado, deitou a farinha de milho; e sobre a tábua algum feijão e torresmos de carne de porco, embrulhados em folhas de couves. 

  Recostando-se então à aba da prateleira, a menina com os olhos fitos na preta começou em um tom brando e suavíssimo a repetir este acalanto: 

Cala a boca, anda, nhazinha, 

 Ai-huê, lê-lê! 

Senão olha, canhambola,    

Ai-huê, lê-lê! 

Vem cá mesmo, Pai Zumbi,    

Toma, papanha Bebê! 

  À proporção que a menina cantava, à preta desrugava-se o rosto contraído por um espasmo, que lhe deixara impressa no semblante alguma profunda angústia. Uma vaga expressão de sorriso chegou a iluminar aquela fisionomia bruta e repulsiva. Os olhos pouco antes baços e quase extintos desferiram um lampejo, e vagando um instante pelo aposento, se fixaram enfim no vulto de Berta. 

  - Bebê!... regougaram os grossos beiços da negra com uma voz que não parecia humana, embora repassada de extrema doçura. 

  Depois arrancou do peito cavernoso a mesma toada do acalanto, cujas palavras truncava por forma que somente se percebia delas a sonância confusa e estranha. Dir-seia que ela cantava em algum dialeto africano, tão bárbara era a pronúncia com que se exprimia. 

  Entretanto fora dela mesma que Berta aprendera a cantilena por tê-la ouvido repetir muitas vezes. Imagine-se que esforço de paciência e atenção não fora necessário à menina para decifrar entre os sons ignotos e quase inarticulados, as palavras da cantiga, que ela dantes nunca ouvira. 

  Mas a pobre louca era uma das misérias sobre que se derramava como bálsamo a alma de Berta. Desde criança se habituara a passar aí algumas horas, de quando em vez; tornando-se moça vinha regularmente duas vezes por semana visitar a sua protegida e trazer-lhe o sustento. 

  Esperou Berta com a maior paciência que Zana acabasse de cantar; e então mostrando-lhe as provisões conseguiu que ela comesse alguns bocados dados por sua mão. Para que a doida abrisse a boca, porém, era necessário que a menina estivesse a repetir de momento a momento duas palavras que pronunciadas por sua voz carinhosa produziam sobre esse espírito enfermo um efeito mágico. 

  - Zana, bebê!... 

 

XVIII 

A visão 

 

  Sentara-se Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergôntea que partira do galho seco de um marmeleiro, traçava letras no chão do quintal. 

  Eram iniciais de nomes, que ela tinha no coração ou na memória; e naquele momento de cisma lhe acudiam de envolta com as recordações de sua modesta existência, à qual estavam entrelaçadas. 

  De instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que já completamente alheia e despercebida de sua presença, continuava a menear a cabeça com a mesma incompreensível surdina; ou arrancava da taipa um torrão de barro, que mastigava com avidez. 

(continua...)

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