Por José de Alencar (1875)
A maneira afável por que a moça o tratava tinha, senão desvanecido completamente, ao menos embotado, as suscetibilidades de sua consciência acerca do ajuste que fizeram com Lemos. Não que se absolvesse da culpa; mas esperava remí-la pelo amor.
Suas conversas com Aurélia versavam ordinariamente sobre temas de sala. Às vezes, porém, ele aproveitava um pretexto para falar-lhe nesse estilo terno e mavioso, que é como o canto do amor, e por isso não carece da idéia, mas somente do vocábulo sonoro, para abalar o coração aos suaves harpejos dessa música.
Então Aurélia pendia a fronte, e escutava com recolhimento o lirismo da palavra inspirada pelo moço; todavia nunca em seu rosto ou em sua pessoa transpareceu o menor sinal de retribuição a esse afeto. Ela abria a alma ao amor; porém o amor que filtrava nas meigas falas de Seixas, evaporava-se como uma fragrância que a envolvia um instante, sem penetrar-lhe os seios d'alma.
Houve ocasião em que escapou a Seixas outra alusão ao passado. Como da primeira vez ela o atalhou:
- Esse tempo não existe para mim. Nasci há um ano.
Encontrando-se uma tarde com Lemos, Seixas o interpelou:
- Tenho um favor a pedir-lhe.
- Dois que sejam.
- Diga-me com franqueza, qual o motivo por que o senhor escolheu-me de preferência para marido de sua pupila, quando nem me conhecia?
O velho debulhou uma risadinha que lhe era peculiar.
- Han! Han!... Então quer saber? Pois lá vai; não faço mistério, não me convinha que a pequena se deixasse iludir pelas lábias de um desses bigodinhos que lhe andam ao faro do dote. Então soube que ela outrora gostara do senhor; e como pelas informações que tinha, me quadrava, fui procurá-lo. Agora o resto é por sua conta, maganão.
Esta explicação mais serenou o espírito do moço, e dissipou uns últimos rebates que ainda o assaltavam às vezes. Pensando bem, o modo por que ajustara seu casamento não era nenhuma novidade; todos os dias estavam fazendo dessas alianças de conveniência, em termos idênticos, senão mais positivos.
Além disso a sorte, por uma feliz coincidência, fizera que desse projeto de casamento de razão surtisse um enlace de amor; de modo que o coração absolvia e santificava quanto se havia feito para realização de seus votos.
Continuou pois Seixas com os seus doces madrigais e os maviosos noturnos ao canto da sala.
Depois da noite da apresentação deixara Lemos a seus protegido, como o chamava, o cuidado de arranjar seus negócios. Apareceu-lhe porém uma manhã:
- Meu amigo, se não tem o que fazer agora, vamos concluir o negócio. Isto de casamento é como sopa; não se deixa esfriar.
Seixas também tinha pressa de sair da situação em que se achava; temia a cada instante ver dissipada a doce ilusão com que sua alma disfarçava a transação por ela aceita.
A idéia de aparecer ante a moça sob o aspecto de um especulador, era-lhe suplício.
Acedeu prontamente ao convite do negociante, e acompanhou-o à casa de Aurélia, em traje de cerimônia.
A moça prevenida da visita os esperava no salão, onde foram logo introduzidos; depois dos cumprimentos e de uma conversa frouxa e distraída, Lemos formalizando-se, tomou a palavra:
- D. Aurélia, o sr. Seixas a quem já conhece por suas excelentes qualidades, pessoa digna de toda a estima, pediu-me sua mão. Por minha parte eu não podia fazer melhor escolha, em todos os sentidos; mas tudo isso de nada vale, se não tiver a fortuna de merecer o seu agrado.
Aurélia fitou em seu pretendente um olhar que desmentia o sorriso em flor de seus lábios.
- Não lhe assustam meus caprichos e excentricidades?
- Se eu os adoro! Respondeu Seixas galanteando.
- Não lhe parece difícil fazer a felicidade de um coração desabusado como este meu, e tão afligido pela dúvida?
- Tenho fé no meu amor; com ele vencerei o impossível.
Apagou-se nos lábios de Aurélia o sorriso; e a expressão de um ardente anelo, ressumbrado do mais profundo de sua alma, imergiu-lhe o semblante.
- Aqui tem minha mão; é tudo quanto posso dar-lhe. A mulher que ama e que sonhou, essa não a possuo. Mas se o senhor tiver o poder de realizar, ela lhe pertencerá absolutamente como sua criatura. Acredite que esta é a esperança de minha vida, eu a confio de sua afeição.
A moça com um gesto de sublime abandono oferecera sua mão acetinada a Seixas, que a beijou murmurando as efusões de seu júbilo e gratidão.
O Lemos que se apartara discretamente para não acanhar os noivos, tornou à conversação, que reassumiu o tom ligeiro das banalidades do costume.
A notícia do próximo casamento de Aurélia produziu na alta sociedade fluminense grande assombro.
Ninguém podia capacitar-se de que essa moça, pretendida pela nata dos noivos fluminenses, podendo escolher à vontade, entre os seus inúmeros adoradores, maridos de toda a espécie, tivesse o mal gosto de enxovalhar-se com um escrevinhador de folhetins.
O Alfredo Moreira, quando a encontrou depois da novidade, não pode esconder o despeito:
- Então casa-se?
- É verdade.
- Afinal achou; cotação muito alta sem dúvida? Replicou o elegante com ironia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.