Por José de Alencar (1875)
Nas abas da serra onde as árvores tinham conservado a verdura, sentia-se passar pela floresta um estremecimento como de prazer. A brisa da manhã enredando-se pela ramagem rociada não mais arranca os murmúrios plangentes da mata crestada. Agora o crepitar das fôlhas é doce e argentino, como um harpejo sorridente.
Não eram somente as matas, os silvaçais e as várzeas que se arreavam com as primeiras galas do inverno. O espaço, até ali mudo e ermo na limpidez de seu azul diáfano, começava por igual a povoar-se dos pássaros, que durante a sêca se refugiam nas serras e emigram para climas amenos.
Já se ouviam grazinar as maracanãs entre os leques sussurrantes da carnaúba e repercutirem os gritos compassados do cancã, saltando pela relva. O primeiro casal de marrecas, naquele instante chegado das margens de Parnaguá, a centenas de léguas, banhava-se nas águas de um alagado produzido pela chuva.
D. Flor, retida em casa no primeiro dia pela fadiga da jornada e no segundo pelos chuvisqueiros que tinham encharcado o terreiro, aproveitou a bonita manhã para rever os sítios da infância depois de longa ausência.
Neste momento desce esquiva e ligeira os degraus da varanda e desaparece por entre o arvoredo do pomar, volvendo um olhar na direção da casa, para certificar-se que não se apercebiam de sua ausência.
Não entrava nesse cuidado da donzela o receio de uma falta. A ingênua altivez de sua índole não a deixaria nunca praticar ato que ela julgasse repreensível, nem recorrer a disfarces para esconder suas intenções.
O que a fizera esgueirar-se pelo quintal não passava de uma fantasia de moça. Quando saía a passear pela fazenda era costume abalar-se meia casa para ter o contentamento e a fortuna de acompanhar a doninha.
Não havia agregada ou escrava que não disputasse a honra de abrir-lhe o caminho, levá-la à sua palhoça, para oferecer-lhe o presente que lá tinha guardado. As mais moças brigavam a quem lhe daria a fruta mais bonita ou lhe descobriria o ninho de beijaflor. Depois vinham as crias que também porfiavam nas cabriolas e algazarras com que festejassem a marcha triunfal.
Em outras ocasiões D. Flor deleitava-se no meio dessa procissão, que lhe formava uma côrte de princesa daqueles sítios; nessa manhã desejou passear só, talvez que para estar mais presente nos sítios queridos que ia percorrer, e dos quais andara separada tantos meses.
Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo, que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate.
Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com rocais da mesma fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao quintal cingiu a cabeça com êsse toucado, que abrigava-lhe a cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza.
A donzela, deixando o pomar, deu volta ao redor do edifício e foi sair próxima ao casalinho da Justa, para onde se encaminhou.
A sertaneja estava neste momento sentada na soleira da porta; acabava de ordenhar suas cabras. Perto dela via-se um alguidar onde ia deitando a conta de cada uma. As chuvas das últimas noites haviam enchido as têtas, que já dificilmente apojavam com a sêca.
Quando a Justa viu a poucos passos sua filha de criação, levantou-se com ímpeto de contentamento e abriu os braços de modo a receber Flor, que lancçou-se-lhe ao colo. Para estreitá-la ao peito, a sertaneja, que não tivera tempo de se desvencilhar do tarro seguro na mão esquerda, nem de lavar a mão direita úmida de leite, cruzou os pulsos, afastando-os de modo a não tocar a menina.
Êste movimento aproximou da espádua de D. Flor o púcaro no qual a donzela, enquanto deixava-se abraçar, punha os lábios e bebia a rir uns goles de leite.Justa, a quem os brincos da filha querida faziam mais menina que ela, prestou-se à travessura e prolongou-a para gozar da ventura de conservar a moça por mais tempo abraçada.
— Que bom leite, mamãe Justa! E que saudades que eu tinha dele! O de lá é aguado, não se parece com o nosso! De qual é? Da Cambraia?
— Não, meus carinhos, é da Mochincha. A Cambraia está amojada.
Esqueceu tudo quanto tinha que fazer a boa sertaneja, no alvorôço de receber a filha. Não havia no casalinho maior festa, desde a Circuncisão até São Silvestre, do que lhe trazia D. Flor sempre que aí vinha.
A cabana constava de três peças: uma servia de varanda, outra de dormitório, a última era a cozinha. Todas as portas e janelas estavam abertas, de modo que o ar e a luz entravam francamente com a fragrância dos campos. O chão era de massapé, mas tão rijo e varrido que não se via sinal de poeira.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.