Por José de Alencar (1857)
Cecília riu-se do susto que tivera, e acabou o seu vestuário de banho que a cobria toda, deixando apenas nus os braços e o pezinho de menina.
Atirou-se à água como um passarinho; Isabel que a acompanhara por comprazer ficou sentada à beira do rio.
Como Cecília estava bela nadando sobre as águas límpidas da corrente, com seus cabelos louros soltos, e os braços alvos que se curvavam graciosamente para imprimir ao corpo um doce movimento! Parecia uma dessas garças brancas, ou colhereiras de rósea cor que deslizam mansamente à flor do lago, nas tardes serenas, espelhando-se no cristal das águas.
Às vezes a linda menina se deitava de braços e sorrindo ao céu azul ia levada pela corrente; ou perseguia as jaçanãs e marrecas que fugiam diante dela. Outras vezes Peri que estava distante, do lado superior do rio, colhia alguma flor parasita que deitava sobre um barquinho feito de uma casca de pau e que vinha trazido pela correnteza.
A menina perseguia o barquinho a nado, apanhava a flor, e ia oferecê-la na pontinha dos dedos a Isabel, que desfolhando-a tristemente, murmurava as palavras cabalísticas com que o coração procura iludir-se.
Em vez porém de consultar o presente, perguntava o futuro, porque sabia que o presente não tinha esperanças para ela, e se a flor dissesse o contrário mentia.
Havia meia hora que Cecília estava no banho, quando Peri, que colocado sobre uma árvore não deixava de lançar o olhar ao redor de si, viu na margem oposta as guaximas se agitarem.
A ondulação produzida nos arbustos foi-se estendendo como um caracol e aproximando-se do lagar onde a moça se banhava, até que parou detrás de umas grandes pedras que havia à beira do rio.
Do primeiro lanço de olhos o índio conheceu que o largo sulco traçado entre as hastes verdes do arvoredo não podia deixar de ser produzido por um animal de grande corpulência. Seguiu rapidamente pelos ramos das árvores, atravessou o rio sobre essa ponte aérea, e conseguiu, escondido pelas folhas, colocar-se perpendicularmente ao lagar onde ainda se fazia sentir a oscilação dos arbustos.
Viu então sentados entre as guaximas dois selvagens, mal cobertos por uma tanga de penas amarelas, que com o arco esticado e a flecha a partir, esperavam que Cecília passasse diante da fresta que formavam as pedras para despedirem o tiro.
E a menina descuidada e tranqüila já tinha estendido o braço e ferindo a água passava sorrindo por diante da morte que a ameaçava.
Se se tratasse de sua vida, Peri teria sangue-frio; mas Cecília corria um perigo, e portanto não refletiu, não calculou.
Deixou-se cair como uma pedra do alto da árvore; as duas flechas que partiam, uma cravou-se-lhe no ombro, a outra rogando-lhe pelos cabelos mudou de direção.
Ergueu-se então, e sem mesmo dar-se ao trabalho de arrancar a seta, de um só movimento tomou à cinta as pistolas que tinha recebido de sua senhora, e despedaçou a cabeça dos selvagens.
Ouviram-se dois gritos de susto que partiam da margem oposta, e quase logo a voz trêmula e colérica de Cecília que chamava:
— Peri!...
Ele beijou as pistolas ainda fumegantes e ia responder, quando a dois passos surgiu de entre a touça o vulto de uma índia que sumiu-se ligeiramente no mato.
Enfiou um olhar pela fresta e julgando Cecília já fora do banho e em lugar seguro, lançou-se atrás da índia a que já lhe levava um grande avanço.
Uma larga fita vermelha que escapava da ferida tingia a sua alva túnica de algodão; Peri sentiu-se vacilar de repente e apertou com desespero o coração como para reter o sangue que espadanava.
Foi um momento de luta terrível entre o espírito e a matéria, entre a força da vontade e o poder da natureza.
O corpo desfalecia, os joelhos se dobravam, e Peri erguendo os braços como para agarrar-se à cúpula das árvores, estorcendo os músculos para manter-se em pó, lutava debalde com a fraqueza que se apoderava dele.
Debateu-se um momento contra a poderosa gravitação que o vergava para a terra; mas era homem, e tinha de ceder à lei da criação. Entretanto sucumbindo o valente índio resistia sempre; e vencido parecia querer lutar ainda.
Não caiu, não; quando a força lhe faltou de todo, foi-se lentamente retraindo e tocou a terra com os joelhos.
Mas então lembrou-se de Cecília, de sua senhora a quem tinha de vingar, e para quem devia viver a fim de salvá-la, e de velar sobre ela. Fez um esforço supremo: contraindo-se conseguiu reerguer-se; deu dois passos vacilantes, girou no ar e foi bater de encontro a uma árvore com a qual se abraçou convulsivamente.
Era uma cabuíba de alta grandeza que se elevava pelo cimo da floresta, e de cujo tronco cinzento borbulhava um óleo cor de opala que desfiava em lágrimas.
O suave aroma que recendia dessas gotas fez o índio abrir os olhos amortecidos, que se iluminaram de uma brilhante irradiação de felicidade. Colou ardentemente os lábios no tronco, e sorveu o óleo, que entrou no seu seio como um bálsamo poderoso.
Sentiu-se renascer
Estendeu o óleo sobre a ferida, estancou o sangue e respirou.
Estava salvo.
XII
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.