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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Lesto, como o galgo que aventou a caça, tangeu o rapaz diante de si a ninhada pelo corredor a fora em busca do quintal, com o ouvido alerta e olhar à espreita na esperança de lobrigar de longe a filha do tabelião. Mas não viu sombra da linda imagem que trazia n’alma. 

Encaminhou-se pois ao galinheiro, bem desconsolado de sua vida; e lá deixou, com a ninhada, a esperança de receber naquele dia a lembrança do costume. Ao voltar tropicou com a fraqueza e tremor que lhe deu das pernas. 

E não era para menos. Encontrara-se rosto a rosto com a Marta, que ali estava diante dele, palpitante, como um passarinho sob o olhar do gavião, e fechada em seu enleio, como a flor que abrocha em botão, com o temporal. 

Tinha a menina cingida ao seio pelo braço esquerdo uma franga de penas mui alvas, que a brancura de sua tez escurecia. Andava triste aquela diva do poleiro, talvez pelo seu estado interessante, pois achava-se no primeiro choco. Daí vinham os desvelos de Marta, que depois de a tratar, ia levá-la ao galinheiro. 

Com o susto que sentiu a rapariga dando com o Ivo em frente a si, escorregou-lhe do braço a franguinha que, passado o primeiro instante de atordoamento, disparou a correr. Após ela partiu Marta, e no encalço de ambos Ivo, que se não fez esperar. 

 

Começaram então as corridas e reviravoltas, de que se lembra com saudades quem em menino se divertiu a apanhar uma galinha no terreiro da casa paterna. E os logros que pregava a maldita, e as quedas que se davam no brusco torcer do corpo, e as boas gargalhadas com que se adubava a travessura? 

No meio do pega que ia pelo quintal, não sei como foi, que os dous em vez de apanharem a franga, se agarraram a si. Um maldoso era capaz de cuidar que se tinham abraçado. 

— Ai! gritou Marta, soltando-se da cadeia que a prendia. 

Trêmulo, o rapaz não teve ânimo, nem forças de retê-la; e ficou palerma, a olhar, balbuciando em voz sumida: 

— Não foi por querer!... 

— É capaz de me pegar?... acudiu Marta com petulância, acenando uma corrida. Nem nada! 

— Quer ver? 

E o Ivo disparou atrás da menina uma nova corrida, que depois de muitas negaças e risadas, veio como a primeira acabar em abraço. 

Desta vez, naturalmente pelo cansaço, deixaram-se ficar os namorados como estavam, arrimados a uma latada de maracujás, juntinhos e entrelaçados pela cintura. 

Ápage! Que tremenda algazarra soou de repente na copa da pitombeira onde já estavam encarapitados o Cláudio e seus companheiros. 

— Está bonito! 

— Ai! que desejos! 

— Mais outro! 

— Bem apertadinho!...

— Agora uma beijoca! 

— Ora, sem cerimônia! 

— Só malandro!... 

— E o velho tonto que não dá pela maroteira! ... 

— Pato choco! 

— Quiá! Quiá! Quiá!... 

— Abraça, abraça, que da pele te há de sair! 

— Gostas, hem? Pois hei de dar-te um bem apertado, mas é de embira!... 

— Ora vejam que patola! 

— Bigorrilhas! 

— Desavergonhado! 

Esta saraiva de chufas e ditérios misturada de caroços de pitomba, não veio aos esguichos, o que talvez se induza das falas assim apanhadas. Foi uma vaia e caiu de roldão sobre os dois míseros namorados, como o fracassar de um raio que os fulminasse. 

Marta, criando-lhe asas o pejo, sumiu-se no interior da casa. Quanto ao Ivo, seu primeiro ímpeto foi afrontar a récua dos minoristas, e expugná-los a pedra. Mas lembrou-se do tabelião, e esfriou; embiocando-se no gibão e esgueirando-se pela cerca, pôde ganhar o corredor. 

— Que ficou a cheirar lá por dentro, moço? gritou-lhe o tabelião ao vê-lo entrar. 

— Saberá Vossa Mercê que... Sim, senhor, que... a franga deitou a correr, e foi preciso apanhá-la!... 

— Apanhar... apanhar... repetiu o Freire arremedando o Ivo com o seu mais esganiçado falsete. Apanhar precisava você na cabeça, mas era um carolo desta régua. 

— Alto lá, Senhor Sebastião, que os truques não foram do ajuste.

— Não me respingue, hem! 

Ainda uma vez sofreou o rapaz o seu ímpeto, lembrando-se de Marta cujo piso sutil lhe parecera ouvir do lado da porta. 

 

XVII 

 

PROGNÓSTICO TIRADO POR UM TABELIÃO DA ASCENSÃO OU 

GRAVITAÇÃO DO NARIZ DE SEU ESCREVENTE 

 

Sentado à mesa de cedro, no meio da furna de prateleiras e autos, o Ivo jurou a si mesmo recuperar o tempo vadio, dando conta com a maior presteza da tarefa do edital. 

Mas se o corpo ali estava em face da folha de almaço estendida sôbre a mesa, o espírito lá andava-lhe a correr pelo quintal, fazendo estrepolias por causa da franga, e escondendo-se em um seio palpitante, coberto por um justilho pérfido. 

No meio destas cismas, deu o Sebastião Ferreira um tremendo espirro que arrancou o escrevente ao seu enlevo, e o pôs de pena armada, pronta a acometer a abstrusa gíria do edital. Por uma coincidência que mostra quanto é verdade haverem dias caiporas, ou nefastos, como lhe chamaram os romanos, sucedeu que no alto do manuscrito campeava uma letra maiúscula, de golpe bastardo, e essa letra era um M. 

(continua...)

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