Por José de Alencar (1862)
Ia interrompê-la recusando; ela tapou-me a boca.
— E há de sair nos mesmos dias; porém em vez de entrar de manhã e sair de tarde, entrará de tarde e sairá de manhã. Não lhe agrada?
— Então à exceção desses dois dias toda a semana é minha? disse não me cabendo de
contente.
— Sua, não senhor, minha. Deixo-lhe dois dias para ver seus amigos...E não acha que é muito? Bastava um!
Ficou séria de repente:
— Assim ninguém desconfiará; não saberão onde está. Se lhe perguntarem, não o diga, nem mesmo ao Sá. Ele seria o primeiro que me julgaria capaz de querer fazer com o senhor o que tantas fazem com o homem que preferem. Gostam de mostrá-lo no teatro, na rua, em toda parte!
Lúcia, como vê, parecia adivinhar o que me tinham dito o Cunha e Sá para desmenti-los completamente. Entretanto, quando eu devia admirar a nobreza dessa alma, quando a mulher que acusavam de cúpida e avara, afastava delicadamente uma questão mesquinha, entregando a sua vida a um homem que mal conhecia, cujo caráter e posição ignorava, o meu orgulho me inspirava uma sórdida e estúpida lembrança. Quis responder a tanta dedicação mostrando-me também franco e liberal; mas não refleti que eu era generoso de dinheiro apenas, enquanto que ela o era de sua pessoa e liberdade, talvez de sua afeição.
— Bem, Lúcia, tu queres que eu viva quase em tua casa. Mas é preciso saber o que serei eu
dela!
Olhou-me com expressão que mostrava ter lido no meu pensamento:
— O mesmo que de mim: dono e senhor.
— Então sabes quais são os meus direitos? E para começar, a carta que escrevestes ao Sá, assim como o favor que fizeste à Laura, me competem. O que te pertence, é unicamente o pensamento.
— Ele mostrou-lhe?
— Mostrou-me; e a propósito, o que é que lhe deves, que nunca lhe poderás pagar?
— O quê?...Esta sua generosidade! Acha que é pouco?
Conheci que a tinha ofendido; e pedi-lhe um perdão, que já me estava concedido.
XI
Encontram-se nas florestas do Brasil árvores preciosas, que, feridas, vertem em lágrimas o
bálsamo que encerram.
Assim era, quando uma palavra involuntária da minha parte ofendia-lhe a suscetibilidade e
banhava-lhe o rosto do pranto, que Lúcia me revelava toda a riqueza da sua alma.
As nossas relações duravam havia um mês; apenas algumas ligeiras nuvens, das que achamalotam o azul da atmosfera nas tardes calmosas, toldaram por vezes o nosso céu risonho. Mas, como brisa suave, o hálito de Lúcia as delgaçava logo, e elas se desvaneciam com um sorriso doce e carinhoso. Era eu que desastradamente acumulava sobre o nosso horizonte esses vapores do meu mau humor; e era ela que os expelia, não perdoando, mas pedindo perdão da ofensa que recebera.
A questão econômica, questão delicada em que se chocavam o seu nobre desinteresse e a minha dignidade, havia sido felizmente resolvida.
Tinha visto Lúcia esconder num vaso do toucador a chave da gaveta onde guardava o seu dinheiro. Cometi então a indiscrição de abrir uma vez por semana essa gaveta, e deitar a soma que comportava com a minha fortuna e com o luxo em que ela vivia.
A primeira vez que isso sucedeu, foi na manhã seguinte à visita de Sá; todo o dia se passou sem a menor alteração, o que me tranqüilizou, porque estava firmemente resolvido a não ceder. Já por diversas vezes Lúcia tinha aberto a gaveta; era natural que houvesse percebido; e contudo não me dissera uma palavra.
À tarde porém pareceu-me ouvir ao longe rugir a tempestade.
— Mandei comprar um camarote!
— Se querias ir ao teatro, por que recusaste o que te ofereci?
— Estou tão rica hoje! Não sei o que hei de fazer do dinheiro, respondeu sorrindo.
Veio nesse sorriso um espinho que entrou-me n'alma; olhei-a fixamente, porém já o seu rosto estava calmo e sereno. A consciência que eu tinha, de não ser bastante rico para essa mulher, pungia-me tanto e a cada momento, que à menor palavra dúbia, ao menor gesto equívoco, os meus brios se revoltavam. Farejava uma ironia até no seu próprio desinteresse, que podia ser inspirado pelo conhecimento de minha pobreza.
Mas essa foi a última ocasião em que Lúcia deu azo à minha desconfiança; desde então quando eu ia à gaveta do toucador, por mais que o disfarçasse, ela adivinhava imediatamente, não sei por que secreta revelação; e mal eu me sentava ao seu lado dizia-me com uma mansuetude e uma gratidão sublime, apertando a minha mão ao seio:
— Obrigada!
Como explicar essa rápida e extraordinária mudança? A mulher que dois dias antes se indignava com um oferecimento delicadamente feito, agora não só recebia o serviço oferecido, mas o agradecia com tanta efusão e reconhecimento! Teria nesse momento grande e urgente necessidade de dinheiro, ou a sua primeira recusa não fora sincera?
Compreenda, se pode; quanto a mim, expliquei as repugnâncias de Lúcia por um resto de pudor; e regozijei-me com as suas novas disposições, que vinham poupar-nos futuros dissabores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.