Por José de Alencar (1870)
— O casamento é o suplício de Prometeu, pensava ele; um homem atado ao rochedo da família, com o coração devorado pelo tédio; uma criatura dividida em duas metades, que se contrariam a cada instante, porque estão ligadas. Em vez do romance, do idílio, do drama, a prosa monótona de uma história que se lê todos os dias. Esse prazer incomparável de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu único eu, de dispor livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento dilata a superfície da alma; em vez de sofrer-se no seu coração apenas, sofre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que se chama família.
Horácio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou nessas reminiscências a prova de sua opinião.
— O casamento é tudo isso; mas que importa, desde que não há outro meio de realizar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar, pela felicidade que eu sonho. Pois se eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob hipoteca?
Tendo chegado ao Largo do Machado, o moço entrou no tílburi, que o conduziu a casa.
Aí, contemplando a mimosa botina, guardada como uma relíquia encheu-se cada vez mais da resolução que havia tomado.
CAPÍTULO XI
Eram onze horas da manhã.
Amélia estudava ao piano os exercícios de Herz. As janelas cerradas deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das cortinas
Nesse crepúsculo artificial a beleza da moça tomava uns tons suaves e meigos, que mais seduziam.
Os lindos cabelos, ainda úmidos do banho, cobriam-lhe as espáduas de uma túnica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu desalinho matutino, conchegado à cútis, coloria-se com os reflexos rosados do colo mimoso.
Tanta graça e formosura, realçadas pela singeleza do traje e pela naturalidade da posição, ficavam ali ocultas na doce penumbra da sala e recatadas à admiração. Às duas horas Amélia costumava subir à sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho desaparecia, substituído por um traje mais apurado e elegante. Era a flor singela que o vento desfolha na mata e passa efêmera e desconhecida.
Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e gestos, e põem em contribuição a seda, a renda e a moda para realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são elas tão bonitas e feiticeiras como um certo momento de sedutora negligência, quando parece que a beleza desabrocha de seu gracioso botão.
A porta da sala abriu-se e deu entrada ao Sr. Sales Pereira.
O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que anuncia uma preocupação agradável. Trazia na mão uma carta aberta.
Amélia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ela supunha na cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Sales Pereira passava a manhã em seu escritório; partia logo depois do almoço e só voltava à hora do jantar A surpresa da moça era pois natural.
— Ah! papai! exclamara ela, voltando-se ao rumor da porta. Já veio do escritório?
— Ainda não fui, respondeu Sales Pereira sorrindo. Recebi uma carta, que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãe e... contigo, a quem o objeto mais interessa.
— A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?
— Lê, disse o negociante apresentando-lhe a carta.
Amélia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubores. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuxava no linho o contorno dos lindos seios.
A carta era de Horácio, que pedia ao negociante a mão da filha.
Acabando de a ler, a moça de olhos baixos e o corpo trêmulo, parecia vendarse com sua inocência para subtrair-se ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ela desejava, se possível fosse, esconder-se dentro de si mesma.
— Que devo eu responder, Amélia? perguntou o negociante.
— O que papai quiser! balbuciou a menina.
— Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Se eu não aceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horácio de Almeida?
As pálpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos límpidos. -Papai não acha bom?
— Se ele te for indiferente, eu por mim não tenho grande empenho. É um excelente moço; tem alguma coisa de seu; mas anda em certa roda que não me agrada.
— Que roda, papai?
— De moços da moda.
— Porque é solteiro.
— Então o que decides?
— Desde que papai e mamãe desejam, eu...
— Nós não desejamos coisa alguma; queremos saber tua vontade.
Amélia emudeceu.
— Bem, já vejo que não é de teu gosto. Vou responder ao homem com um não.
Sales Pereira encaminhou-se para a porta.
— Mas, papai!... murmurou a moça.
— Que temos?... Fala, que já me demorei muito. Quase meio-dia!
— Vai responder já?
— À.
— Deixe para amanhã.
— Nada; são coisas que se decidem logo.
— O que vai responder então?
— Que não.
— Mas eu não disse isto!
— Tu nada disseste.
— Pois se eu não gostasse, diria logo.
— Ah! neste caso, gostou?
Amélia sorrindo acenou com a cabeça.
— Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas a Horácio?
A moça fez um supremo esforço:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.