Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Arabela, porém, era o que dizia a terminação de seu nome: tão encantadora e engraçada, que, quando passava por alguma rua, os que estavam à janela gritavam para dentro das casas — lá vem ela —, e todos corriam para vê-la, porque já sabiam que quem vinha era Arabela, tão carinhosa e humana que não havia no seu bairro quem, pela ventura de Arabela, não rezasse algumas orações.
Também nunca em tão fresca idade, pois que bem moça era, se vira unidos a tanta inocência, caráter tão firme, prudência tão consumada, e tão seguro e são juízo; por isso todos a tinham em grande respeito e estima. Os seus próprios pais com ela se aconselhavam nas conjunturas difíceis, em que às vezes se achavam; as palavras de Arabela eram para eles oráculos infalíveis; a sua vontade como uma ordem santa, a que com prazer à risca se cumpre.
Apesar da sua pobreza, Arabela mostrava-se tão formosa, que era conhecida de todos pelo nome de Rosa do Tejo, porque o rubor das suas faces semelhava o aspecto, e a virtude da sua alma o perfume da flor.
Arabela tinha feito dezoito anos, e via-se cercada de apaixonados requestadores, que à porfia se extremavam em dar-lhe mais altas provas do amor que os consumia, e que, surda ou insensível achando-a, corriam dela para os pais, a pedir-lhes a filha.
Os pais de Arabela, porém, sabendo o quanto era a moça prudente e recatada, jamais fizeram por dirigir-lhe a vontade para aquilo de que ela parecia querer fugir.
Entretanto, apareceu entre os pretendentes de Arabela um rico e jovem fidalgo, que, levado dos lindos olhos e perfeições da pobre moça, se esqueceu de que alta era a sua linhagem, elevados os seus teres e, descendo do seu brilhante palácio a uma rasteira casinha, veio pôr o seu coração de grande senhor aos pés de uma humilde aldeã.
Debalde o seu muito ostentar de galas e louçainhas, debalde o seu alto despender de agrados e extremos, o grande senhor passava por baixo dos olhos da pobre aldeã com o seu amor tão mal-atendido como os outros: ainda não era a D. Rui Vaz que devia pertencer a alma de Arabela.
Mas o amor de Rui Vaz era tão ardente como puro; e foi ele, a despeito das repulsas da moça, oferecer seu nome à família dela: era um partido imensamente brilhante; era um nome de fidalgo que ia cobrir o desconhecido e simples da popular; era um palácio que se trocava por uma cabana; era um futuro que se oferecia a quem não tinha passado e só podia contar com um pobre presente. Os pais de Arabela foram entusiasmados aplaudir a filha; mas recuaram espantados, porque ela lhes respondeu:
— Não foi para este que eu nasci.
— Mas olha, Arabela, disse o pai, que se trata do Sr. D. Rui Vaz, rico fidalgo de alta linhagem.
— Que hoje me ama, tornou a moça, que casando-se comigo há de ainda amar-me um ano, e depois se envergonhará de meus pais e terá enfim pejo de andar comigo a seu lado. Os pais calaram-se, porque era isso, na verdade, o que havia de acontecer; mas depois a mãe disse:
— Pensa, Arabela, que já fizeste dezoito anos, e que é tempo de tomar um marido que te proteja; cumpre escolher um noivo.
— Eu já o tenho escolhido, minha mãe.
— Então, quem é?
— Gil Mendonça.
— Bom mancebo é ele, minha filha; mas tão pobre!
— Como eu também o sou, minha mãe; porém, ambos nos amamos.
— Homem, disse a mulher ao marido, irás levar a resposta de Arabela ao Sr. D. Rui Vaz. — Irei, mulher; posto que me pareça loucura preferir um aldeão a um fidalgo; mas Arabela tem mais juízo do que nós pensamos; ela que assim o fez, é porque assim o devia fazer. A vontade de Arabela foi prontamente cumprida; e, ao mesmo tempo que D. Rui Vaz se sentia despeitado da sua má fortuna, tudo se dispunha para o casamento da linda popular com o feliz Gil Mendonça.
Na véspera do casamento, em volta de uma tão frugal como alegre mesa, estavam os noivos e seus pais, quando entrou o fidalgo, que vinha tentar o último esforço.
Convidado a tomar parte na parca ceia, ele sentou-se, comeu com boa vontade, e, depois de se levantarem da mesa, pôs em ação quanto podia para desviar Arabela de casar-se com Gil Mendonça, e aceitar a sua mão; pretendeu chamar ao seu partido os pais da moça, dando-lhes conta das suas imensas riquezas, e ganhar o mesmo Gil Mendonça, apelando para a sua generosidade, dizendo-lhe que, se ele sinceramente amava Arabela, devia sacrificar o seu amor para vê-la feliz na elevada posição que se lhe oferecia.
Os pais de Gil Mendonça ficaram duvidosos; os de Arabela inclinados a favor de D. Rui Vaz, porém calados, porque tinham sua filha na conta de muito prudente e sábia, pensavam que tudo quanto ela fazia era somente o que devia ser feito.
Gil Mendonça, silencioso e com os braços cruzados, esperava frio e impávido a resposta de Arabela.
— Sr. D. Rui Vaz, disse Arabela, eu sou reconhecida aos seus extremos; e quero provar que não os desmereço: a mulher que esquece o pobre a quem ama, pelo rico a quem apenas estima, tem coração que com dinheiro se compra?
— Oh! não... bradou o fidalgo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.