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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

CAPÍTULO XII - Da morte que dão aos cativos e crueldades que suão com eles.

Uma das cousas em que estes Índios mais repugnam o ser da natureza humana, e em que totalmente parece que se extremam dos outros homens, é nas grandes e excessivas crueldades que executam em qualquer pessoa que podem haver ás mãos, como não seja de seu rebanho. Porque não tão somente lhe dam cruel morte em tempo que mais livres e desimpedidos estão de toda a paixão; mas ainda depois disso, por se acabarem de satisfazer lhe comem todos a carne usando nesta parte de cruezas tão diabólicas, que ainda nelas excedem aos brutos animais que não tem uso de razão nem foram nascidos para obrar clemência.

Primeiramente quando tomam algum contrario se logo naquele fragrante o não matam levam-no a suas terras para que mais a seu sabor se possam todos vingar dele. E tanto que a gente da aldêa tem noticia que eles trazem o tal cativo, daí lhe vão fazendo um caminho até obra de meia légua pouco mais ou menos onde o esperam. Ao qual em chegando recebem todos com grandes afrontas e vitupérios tangendo-lhe umas fraturas que costumam fazer das canas das pernas doutros contrários semelhantes que matam da mesma maneira E como entram na aldêa depois de assim andarem com ele triunfando de uma parte para outra lançam-lhe ao pescoço uma corda de algodão, que para isso tem feita, a qual é mui grossa, quanto naquela parte que o abrange, e tecida ou enlaçada de maneira que ninguém a pode abrir nem cerrar senão é o mesmo oficial que a faz. Esta corda tem duas pontas compridas per onde o tão de noite para não fugir. Dali o metem numa casa, e junto da estancia daquele que o cativou lhe armam uma rede, e tanto que nela se lança cessão todos os agravos sem haver mais pessoa que lhe faça nenhuma ofensa. E a primeira cousa que logo lhe apresentam é uma moça, a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, a qual lhe dam por mulher: e daí por diante ela tem cargo de lhe dar de comer e de o guardar, e assim não vai nunca para parte que o não acompanhe.

E depois de o terem desta maneira mui regalado um ano, ou o tempo que querem, determinam de o matar, e aqueles últimos dias antes de sua morte, per festejarem a execução desta vingança, aparelham muita louça nova, e fazem muitos vinhos do sumo de uma planta que se chama aipim de que atras fiz menção. Neste mesmo tempo lhe ordenam uma casa nova onde o metem. E o dia que ha de padecer pela manhã muito cedo antes que o sol saia, o tiram dela, e com grandes cantares e folias o levam a banhar a uma ribeira. E tanto que o tornam a trazer, vãose com ele a um terreiro que está no meio da aldêa e ali lhe mudam aquela corda do pescoço á cinta passando-lhe uma ponta para traz outra para diante; e em cada uma delas pegadas dous, tres Índios. As mãos lhe deixam soltas porque folgam de o ver defender com elas e ali lhe chegam uns pomos duros que tem entre si á maneira de laranjas com que possa tirar e ofender a quem quiser. E aquele que está deputado para o matar é um dos mais valentes e honrados da terra, a quem por favor e preeminência de honra concedem este oficio. O qual se empena primeiro per todo o corpo com pena de papagaios e de outras aves de varias cores. E assim sai desta maneira com um Índio que lhe traz a espada sobre um alguidar, a qual é de um pau mui duro e pesado feito á maneira de uma maça, ainda que na ponta tem alguma de pá; e chegando ao padecente a toma nas mãos e lhe passa por baixo das pernas e dos braços meneando-a de uma parte para outra.

Feitas estas cerimonias afasta-se algum tanto dele e começa a lhe fazer uma fala a modo de pregação, dizendo-lhe que se mostre mui esforçado em defender sua pessoa, para que o não desonre, nem digam que matou um homem fraco, afeminado, e de pouco animo, e que se lembre que dos valentes é morrerem daquela maneira, em mãos de seus inimigos, e não em suas redes como mulheres fracas, que não foram nascidas para com suas mortes ganharem semelhantes honras. E se o padecente é homem animoso, e não está desmaiado naquele passo, como acontece a alguns, responde-lhe com muita soberba e ousadia que o mate muito embora, porque o mesmo tem ele feito a muitos seus parentes e amigos, porem que lhe lembre que assim como tomam de suas mortes vingança nele, que assim tão bem os seus o hão de vingar como valentes homens e haverem-se ainda com ele e com todo a sua geração daquela mesma maneira.

(continua...)

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