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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

No segundo andar o som abafado de um despertador elétrico fez sinal retinindo embaixo, nos aposentos do secretário. Ele e a mulher trocaram algumas palavras. Tinham combinado com o visconde para as seis horas e o visconde prometera pão faltar. — Às seis em ponto estaria na casa do amigo Furtado.

Foi pontual o Santa Quitéria — questão de mais um minuto, menos um minuto. Vinha chique e alegre, sorrindo ao aproximar-se da casa do secretário, no seu veston de brim, chapéu de palha, binóculo a tiracolo e uma pequena valise cor de chocolate.

As duas senhoras correram à janela e o marido de D. Branca foi recebê-lo à porta da rua.

O visconde apeou nobremente, murmurou qualquer coisa ao boleeiro, e, risonho, apertando a mão a Furtado:

— Creio que estou na hora...

O secretário respondeu com uma exclamação venturosa, estirando o braço para o Corcovado:

— Veja que dia lindo!

— Efetivamente! Está convidativo, está próprio!

E respeitoso, solene, o amável banqueiro perguntou pela "excelentíssima senhora" e pelas crianças.

— Todos bons, muito obrigado. O senhor visconde é que tem mocidade para um século!

— Oh, meu amigo... As aparências iludem... já me vou sentindo cansadinho, graças a Deus.

— Ora, o senhor visconde!

Branca e Adelaide gentilmente o acolheram no alto da escada.

Evaristo completava a toilette no segundo andar

— Que dia lindo, senhor visconde! - fez a esposa do secretário. recuando para deixar passar o Santa Quitéria.

— Lindo, minha senhora, lindíssimo!

Tinham todos um ar alegre e trataram-se com uma familiaridade burguesa, na mais bela disposição de ânimo.

Adelaide, curiosa, quis ver se o visconde trazia o anelão de brilhante, e os seus olhos procuravam a mão do banqueiro. Trazia, sim. Era uma das coisas que ela admirava naquele homem — o anel, uma jóia primorosa, inestimável.

— O senhor seu marido vai bem, minha senhora?

— Bem, obrigada - respondeu Adelaide, menos cerimoniosa.

Porque o visconde de Santa Quitéria em roupa de passeio não tinha ares de fidalgo, como quando se apresentava de casaca ou mesmo no seu fraque justo e elegante. A roupa branca - larga e mole no corpo dava-lhe uma feição distinta, mas democrata, uma feição popular de rapazola que sacrifica o luxo pela comodidade, a moda pelo bem-estar. Vendo-o assim, a esposa de Evaristo animara-se a lhe responder em tom quase íntimo de conhecidos velhos.

O criado trouxe uma bandeja com chocolate e pão-de-ló. Todos se serviram, inclusive o bacharel, que já estava presente.

Afinal, depois de meia hora de palestra matutina, e aos primeiros clarões do sol triunfante, a comitiva, em dois carros, tomou a direção do Jardim.

O visconde fora se reunir à família do secretário não tanto por delicadeza, quanto por "chiquismo", para ir na companhia das senhoras, gozando a amável presença de D. Branca e da jovem Adelaide. Não queria perder ocasião de se mostrar na altura dos seus sentimentos e da intimidade com que o tratavam as dignas senhoras. O título de nobreza, que ele carregava solenemente há dois anos, graças à benevolência do Sr. D. Pedro II, não o impedia dessas e outras manifestações democráticas. Os reis também apertam a mão ao povo e também lá um dia esquecem as púrpuras e a coroa, trocando-as pelo redingote burguês... O próprio imperador já uma vez desembarcara na Europa, no cais Sodré, de sobrecasaca e guarda-pó, como qualquer mortal.

Estimava muito o amigo Furtado e a Sra. D. Branca para não ter orgulhos de nobreza, nem de fidalguia. O seu paletó branco e a sua calça branca naquele momento significavam intimidade e também um pouco de elegância. A toilette em harmonia com a estação e com o gênero de passeio.

Num dos carros ia ele, D. Branca e o secretário, no outro Adelaide, Evaristo e o Raul. A Julinha fora passar o domingo à casa do desembargador; D. Sinhá prometeu desvelar-se por ela.

Na frase entusiástica do visconde "o dia estava lindíssimo!" o céu, muito azul, parecia o fundo largo de uma tela desdobrando-se infinitamente por sobre o universo. A Corte espreguiçava-se aos primeiros ruídos da manhã luminosa. Na plataforma dos bondes flutuavam bandeirinhas verde-amarelas com a coroa nacional. Os quiosques de Botafogo tinham o aspecto risonho de pavilhões infantis, embandeirados também, com os seus galhardetes em arco, sob as árvores, olhando para o mar. Um cheiro vivo de jasmins inundava a atmosfera, como que aveludandoa cariciosamente. Principiava a agitação nos cafés e nas hospedarias. O Raul julgou mesmo ouvir sons de música ao longe e apurou o ouvido: — "Se não estava enganado..."

Ia para mais de seis horas.

O visconde foi o primeiro a apear. Todos apearam, numa grande alegria, diante do portão do "nosso Bois de Boulogne" como dizia o Santa Quitéria.

Furtado indagou logo se o homem da rotisserie já teria vindo, e lançou um olhar curioso pelas proximidades do portão.

— Qual! Ainda não veio... Pois olhem que eu tratei para as sete horas!

O visconde tranqüilizou-o puxando o relógio, e dizendo que ainda faltavam quinze minutos para as sete.

(continua...)

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