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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

No dia imediato, uma segunda-feira, recomeçamos, sem perda de tempo, a nossa tarefa de estrangeiros em país desconhecido.

Eu, por mim, confesso que Nova Iorque produzia-me vertigens. O desejo imoderado de tudo ver, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me numa inquietação contínua, tirava-me o sono, arrebatava-me a todas as comodidades, torturava-me o espírito de análise. Uma coisa, porém, devo dizer: raro é o oficial de marinha, mormente da marinha brasileira, que sabe aproveitar o tempo nessas viagens ao estrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos, as horas de folga. Preferíamos a convivência dos cafés-cantantes aos passeios úteis e ao mesmo tempo agradáveis. Um estrangeiro já teve a coragem de dizer que os oficiais de marinha brasileiros levavam o tempo, na Europa, a freqüentar os conventilhos e os cafés-cantantes. Até certo ponto isso é verdade.

Em geral eles pouco conhecem dos países que têm visitado, a não ser em assuntos de sua profissão, e as suas narrativas entre amigos limitam-se quase sempre a recordações de aventuras amorosas.

Também são tão curtas e tão raras essas viagens.

Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o comando de um oficial ilustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos não se restringem à navegação é à artilharia, o aproveitamento é certo. Ele não é somente um superior hierárquico — faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos a maior soma possível de excursões úteis e proveitosas.

Uma das nossas primeiras visitas foi à Estátua da Liberdade, tia ilha de Bedloe.

O importante monumento ainda não estava completamente pronto, mas já se podia fazer uma idéia do que seria ele depois de concluído. O pedestal, de granito, ocupa quase toda a ilhota e mede, aproximadamente, 15 a 20 metros de altura, 154 pés, desde o nível do mar, formando uma espécie de casamata cuja utilidade não souberam nos dizer. Sobre o pedestal ergue-se a estátua, em bronze, armada por meio de vigamentos de ferro, pois que não é inteiriça.

Conta-se que dentro dela realizara-se, em Paris, um magnífico banquete de 12 talheres, presidido por V. Hugo.

Como se sabe, a estátua foi oferecida aos Estados Unidos pela França em agradecimento dos serviços prestados por esta nação à sua amiga na guerra francoprussiana.

O pedestal foi mandado construir à custa de subscrições populares, que em pouco tempo atingiam a uma soma elevadíssima.

Não há por aí quem não tenha ouvido falar na famosa ponte de Brooklin (Brooklyn Bridge), uma das maravilhas da engenharia moderna, que liga a ilha de

Brooklin à Nova Iorque.

Esta cidade, incontestavelmente o primeiro empório comercial da América e uma das mais populosas do mundo, fica situada numa grande ilha formada por dois braços do rio Hudson. De um lado, à direita de quem olha para o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de Nova Jersey, e à esquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses pontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova Iorque, e por preço assaz diminuto.

A princípio, quando se projetou levantar a grande ponte, surgiram mil dificuldades.

Parecia impossível que se pudesse levar a efeito obra tão arriscada e dispendiosa. Como assentar as bases do colosso numa profundidade de mil e seiscentos pés, que é esta a altura do rio na sua parte mais estreita?

Demais era preciso não prejudicar a navegação, construindo a ponte muito acima do nível do mar de modo a dar passagem livre às embarcações de comércio.

Com tudo isso os americanos meteram mãos à obra e dentro de alguns anos de trabalho assíduo os Estados Unidos contavam mais uma glória.

O comprimento total dessa magnífica ponte é de uma milha pouco mais ou menos. As torres onde ela está suspensa erguem-se a 268 pés acima da preamar, de forma que as maiores embarcações de comércio têm passagem fácil por baixo.

O Barroso, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de guerra, apenas foi obrigado a "acachapar" os mastaréus de joanetes.

Atravessa-se a ponte em vagões movidos a eletricidade, em carros de praça ou mesmo a pé. Paga-se um cêntimo para atravessá-la a pé!

O movimento é espantoso. Cruzam-se diariamente as duas populações de Nova Iorque e de Brooklin, em carros, em vagões e a pé, sem risco de se atropelar, por que a cada espécie de veículos corresponde uma passagem independente e adequada. Os que transitam à pé têm também o seu caminho livre e, por conseqüência, não correm o perigo de ser pisados pelos carros.

À noite o aspecto da ponte é feérico.Logo às seis horas da tarde começa a iluminação em toda ela, de um lado e d'outro, destacando-se em alguns pontos, focos de luz elétrica, enormes botões de brilhante que encandeiam a vista.

Vista do mar, então, o efeito é deslumbrante! Lembra as lendárias pontes de Veneza cortando canais, projetando n'água seus reflexos luminosos.

(continua...)

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