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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

— Não, não: quando voltar; prefiro conversar à vontade.

— Pois sim... é um instante. Até logo! — Té loguinho.

E alto, de cima da escada, enquanto o grumete desaparecia no corredor:

— Cuidado hein?!

Estaca escurecendo: seriam seis e pouco. Na rua já havia luz. Continuava o calor, um ar abafadiço, de subterrâneo, sem oxigênio, pesado e asfixiante.

A portuguesa desceu a escadinha do sótão, que estalava com o seu peso, e foi acender o gás da sala de jantar, muito alegre, cantando uma modinha sentimental lá da terra, numa voz lânguida e tremida.

Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar o Aleixo, o bonitinho, toma-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga — dando-lhe tudo enfim.

Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que Aleixo, cuja beleza impressionara-a desde a primeira vez que se tinham visto. Aleixo estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem talvez...

Arranjava-se perfeitamente, sem que Bom-Crioulo soubesse. Mas como falar ao grumete, como propor-lhe o negócio? Ele talvez ficasse ofendido, e podia haver um escândalo...

O verdadeiro era pouco a pouco ir lhe dando a compreender que o estimava muito, oferecendo-se-lhe pouco a pouco, excitando-o.

Outras mais velhas gabavam-se, por que é que ela, com os seus trinta e oito anos, não tinha o direito de gozar? Histórias! mulher sempre é mulher e homem sempre é homem.

Viu-se ao espelho e notou que realmente ainda “prestava serviço”: — Qual velha! Nem um pé-de-galinha sequer, nem uma ruga — pois isso era ser velha? Certo que não. Lá quanto à idade ninguém queria saber. A questão era de cara e corpo... Ora, adeus!...

Começou a fazer-se muito meiga para o rapazinho, guardando-lhe doces, guloseimas, passando a ferro, ela própria, seus lenços, gabando-se na presença de estranhos, fingindo-se distraída quando queria mostrar-lhe a exuberância de suas carnes — perna, braço ou seios... Uma ocasião Aleixo vira-a em camisa curta, deitada, com as pernas de fora; porque os aposentos da portuguesa davam para o corredor e, nesse dia, ela esquecera de fechar a porta. O grumete voltou o rosto depressa, todo cheio de respeito, como se aquilo fosse uma profanação: mas, depois, ao lembrar-se do caso, tinha sempre uns arrepios voluptuosos, não podia evitar certa quebreira, certo desfalecimento acompanhado de ereção nervosa...

Nunca mais lhe saíra da lembrança aquela cena de alcova: uma mulher deitada com as pernas à mostra, muito gordas e penugentas — num desalinho irresistível, braços nus, cabelo solto. — Devia de ser esplêndido a gente dormir nos braços de uma mulher. A portuguesa não era mazinha.

Aleixo, porém, estava longe de supor que D. Carolina, aquela D. Carolina, que o tratava como filho, bondosa e meiga, pretendesse fazê-lo seu amante.

Semelhante idéia nunca lhe passara pela imaginação. Via entrar homens no quarto dela, sabia os amores do açougueiro, mas isso era lá com os outros de barba; o que lhe parecia impossível, e ele nem sequer pensava, é que D. Carolina tivesse intenções com um rapazinho de sua idade, uma criança quase...

— Pronto! fez ele ao voltar do Passeio Público.

— Oh! depressa! exclamou a portuguesa, erguendo-se. Venha cá, no meu quarto está mais fresco...

O quarto de D. Carolina ficava justamente por baixo do sótão, na frente da casa, um largo aposento de mulher solteira, onde havia uma bela cama de casal com travesseiros de renda.

Quando o grumete chegou, ela estava na sala de jantar lendo os anúncios do Jornal do Comércio, à luz do gás.

— Divertiu-se muito?

— Qual! Fui e voltei logo.

— Por minha causa?

— Não, o Passeio é que estava insípido... Pouca gente.

Aleixo parou à porta do quarto como quem receia entrar.

— Entra, filhinho, entra, que isto aqui é nosso, isto aqui é da tua portuguesinha, não vês?

E, alegre como nunca, foi abrindo as janelas que diziam para a Rua da Misericórdia, num alvoroço.

Enquanto o pequeno andava fora, ela fizera nova toilette, penteara-se, mudara a roupa, trocara os tamancos por umas sapatinhas cor de sangue e colocara os anéis, os célebres anéis que lhe tinham querido roubar: transformara-se completamente.

— Senta, deixa de tolice, filho!

Aleixo sentou-se muito acanhado, com um ar de colegial que pela primeira vez penetra num lugar suspeito. Morava naquela casa há um ano e só agora entrava ali, no quarto da portuguesa.

— Bonita sala!

Bonita o quê, ó pequeno; estás a debicar, hein? disse a mulher acendendo o gás, no bico dos pés, rindo. Bonito és tu — tu é que és bonitinho...

— D. Carolina gosta de caçoar com a gente!...

E a portuguesa, sentando-se também, alisando-lhe o cabelo com as mãos, rubra de calor:

— Pois é isto, minha flor: o que eu tinha a dizer é que estou apaixonada por ti! — Ora!...

(continua...)

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