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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Fidêncio sorveu o café, gole a gole. Depois a caseira voltou para o seu trabalho, e o professor foi procurar alguma coisa que ler. Era preciso matar o tempo.

Acendeu um cigarro, abriu uma gaveta e procurou entre vários folhetos de diversas cores e tamanhos um que lhe desse vontade de reler. Eram panfletos anticlericais, com títulos prometedores: Os jesuítas desmascarados. A maçonaria e a Companhia de Jesus. Os jesuítas, simplesmente. As astúcias de Roma. A questão religiosa. A Igreja e o Estado. O jesuíta na garganta, cena cômica. Os lazaristas. Recurso à coroa... uma infinidade! Todos com pseudônimos: Ganganelli, Sebastião José de Carvalho, Fábio Rústico, Um livre-pensador, Um verdadeiro católico, O velho católico, O padre Jacinto, Jacolliot... o diabo! Obras de erudição, discursos declamatórios, panfletos virulentos, de escacha-pessegueiro, que trituravam, moíam e reduziam a pó a Igreja, o papado, os bispos e os homens de roupeta, pondo em pratos limpos, com segurança indiscutível, a história da papisa Joana, os crimes dos Bórgias, os horrores da inquisição e os sofismas audaciosos do Sr. D. Antônio. Ali, naqueles folhetos, discutia-se com lucidez e verdade a questão religiosa! Faziam-se estatísticas, enumeravam-se as vítimas da inquisição na Espanha, as mortes da noite de S. Bartolomeu, em França. Mostrava-se o que era Roma, explicavam-se as patifarias dos cardeais, somavam-se os milhões roubados da Companhia de Jesus. Não havia fugir. Estava ali provado, perfeitamente provado, e o que os padres respondiam eram sofismas.

Fidêncio tomou um dos folhetos, grande, massudo, de capa amarela e tipo doze. Intitulava-se: A mônita secreta, por Um antigo jesuíta. Era incrível o que aquele livro dizia. Era um horror!

Francisco Fidêncio foi buscar à mesa grande o Magnum Lexicon, colocou-o sobre a extremidade dum dos bancos, para lhe servir de travesseiro.

Deitou-se no banco, ao comprido, trançou as pernas, tirou uma fumaça do cigarro e abriu o panfleto, murmurando:

— Patifes!

Um livro assim é que ele queria ter escrito. Quisera ter sido jesuíta, conhecer todos os segredos da Ordem, apanhar-lhe as manhas, e depois vir a público, com uma coragem extraordinária, pôr pela imprensa todas aquelas bandalheiras a nu.

Um dia ainda reuniria em folheto as suas correspondências, formaria um folheto como aqueles, de capa de cor, com o título pomposo em letras gordas e com um pseudônimo. O seu pseudônimo seria: o padre Quelé. Era de arromba!

Ninguém ficaria sério, lendo-o. O diabo era não haver em Silves uma tipografia!

Esta idéia de publicar um livro, de ver os seus artigos reunidos em folheto, com capa e frontispício, enraizara-se-lhe no cérebro, enquanto percorria distraidamente as páginas do panfleto que tinha nas mãos, sem entender o que lia. Que prazer seria o seu! Podia vir a ser citado - o autor do livro tal... o espirituoso e erudito padre Quelé (pseudônimo)... um escritor de pulso que zurze desapiedadamente os padres... O livro podia ser intitulado Carapuças romanas, por exemplo, ou então podia ter um nome pomposo: Os vampiros sociais ou simplesmente Os abutres.

E logo lhe parecia estar vendo o folheto in-octavo, bom tipo, papel acetinado, capa verde, com o seguinte frontispício aparatoso:

OS ABUTRES

PELO PADRE QUELÉ 187.

MANAUS

TIP. DO "DEMOCRATA"

E numa prosa fluente, argumentação cerrada, vigoroso estilo e linguagem castigada, um panfleto mordente e verdadeiro, contando as bandalheiras inqualificáveis do vigário de Silves, reproduzidas das correspondências do Democrata e entremeadas de citações latinas, de apóstrofes veementes a Roma e ao senhor bispo, de exclamações bombásticas e de calemburgos de fazer rir as pedras.

Padre José ficaria bem sovado... mas o diabo era que Padre José estava morto, e o Chico Fidêncio não gostava de dar em defunto. Demais, o que escrevera sobre o falecido vigário não era suficiente para dar um livro de cento e vinte páginas, pelo menos.

O bom era sovar também a padre Antônio de Morais.

Fidêncio largou o panfleto e pôs-se a cismar, achando a idéia impraticável.

O finório do padre era irrepreensível. A sua vida simples e clara não se prestava à crítica!

Fidêncio procurava analisar, por miúdo, a vida do novo vigário de Silves, rebuscando no íntimo dos fatos algum sintoma de fraqueza ou de hipocrisia.

Recapitulando, nada lhe escapava.

(continua...)

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