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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— É o que digo a vocês. As outras comadres não lhe puderam dar volta e não tiveram remédio senão me procurarem, porque, não é por me gabar, todo o mundo sabe que eu sou a tira-teimas. Que horror! A mulher tinha a criança atravessada, lá nela; era cheia de dengues; e, quando vinham as dores, não havia meio de ter mão nela. Eram gritos, exclamações!... E botava a boca no mundo, que não era para graças... Também era a primeira barriga, coitada!... Eu lhe dizia: Tenha paciência, comadrinha... É assim mesmo. - Mas eu já não posso mais, sinhá Rosa. Estas dores me arrebentam – respondia ela, com as mãos fincadas nas cadeiras – Ai... ai... ai... que estou me acabando!... – É porque vosmecê não está afeita... A primeira vez custa um bocado... Nisto, vinha-lhe o sono... Ela passava por uma modorra, como se não tivesse nada. De repente, estremecia... – Lá vem ... lá vêm elas – repetia espantada. Ai... ai... Minha Santa Virgem!... –Ah, meu maridinho... da minha alma... Ai!... Ai!... E eram ais de cortar o coração de quem não labuta, como eu, desde rapariga. Estava eu já esfalfada; não sabia mais como enganar a pobre, quando ela teve um puxo forte e quebraram-se as águas. Então eu disse: daqui a um nadinha, se Deus quiser, está aí a criança. – As dores foram amiudando, umas em riba das outras e... nada... Por fim a mulher não tinha mais forças: os puxos se espaçaram muito escassos, estava lavada em suores, branca como um pano, os olhos revirados e o nariz afilado... Credo! Parecia uma defunta... – Tenha coragem, minha comadre. Mais uma vez e estará livre... Ela não falava; berrava como uma bezerra. Pegueime, então, com o Senhor São Raimundo e rezei o Magnificat. Já estava para mandar tocar, no sino da Matriz, sinal de mulher de parto, quando me veio uma fé... Mandei sujicá-la por outra mulher, que estava junto, e vistoriei-a à fina força, porque, toda cheia de luxo e de vergonhas, me dava com os pés como uma desesperada. O menino estava mesmo atravessado. – Vão ver uma botija, minha gente – disse eu. Trouxeram, uma botija de zinebra vazia, onde eu mandei que ela assoprasse com toda a força. — Sopre... sopre de verdade... Vamos... vamos... mais... mais um bocadinho... Agora... agora... Nisto dei um jeito que só eu sei... A mulher largou um grito rasgado e a criança pulou!... Estava roxo corno uma berinjela... Mal se viu aliviada, era só arremetendo para ver o filho... Eu, com medo de dizer que a criança parecia morta, tinha mão na mãe... A criança não dava sinal de vida. Amarrei-lhe o umbigo; arrumei-lhe quatro palmadas fortes; meti-lhe o dedo na boca cheia de gosma... Foi dito e feito: chorou logo com força, pois era um menino macho, com a graça de Deus... A mulher ficava cada vez mais branca e com uma sede de engolir quartinhas d'água. Era um frouxo danado. Parecia que se havia sangrado um boi... Então mandei assoprar outra vez na botija. E, como as párias não se despregassem, chamei o marido, mandei que botasse o pé em cruz na barriga da mulher enquanto esta rezava comigo: "Minha Santa Margarida, não estou prenha, nem parida, mas de vós favorecida." Ao cabo da terceira vez, estava tudo acabado. Arre! Que nem com dez mil réis me pagavam o trabalho e o susto... Ainda tenho uma dor aqui, na ponta da costela mindinha, de uma feita que ela me empurrou o pé para fazer firmeza...

Credo!...

— Vosmecê tem muita sorte, tia Rosa!...

— Qual! O que eu tenho é fé em Deus.

— Não sei como, em semelhante sequidão, ainda há quem se lembre de ter filhos...

— Você não vê como estão cheios de crianças os abarracamentos de retirantes?! ... Até parece imundície, tanto menino...

— É só o que Deus dá aos pobres...

— É um morrer de crianças que até parece praga...

— Se não morressem, mulher, o mundo já não cabia mais a gente. Depois, anjinhos, não faz mal morrerem... Vão para o céu rezar pelos pais...

— Assim mesmo – retorquiu uma gorda matrona que tinha junto quatro crianças – eu não quero que os meus morram... Já que nasceram é melhor que se criem...

— Pois eu tive cinco – atalhou outra – que Deus chamou à sua santa glória. Foram para o céu direitinho, só passaram pelo purgatório para vomitar o leite pecador...

Em meio da conversa, chegou Teresinha.

— Que fim levou você? – perguntou-lhe Rosa.

— Ando por aí mesmo. Boas tardes a vosmecês todas...

As mulheres corresponderam, friamente, à saudação de Teresinha; e, desconfiando que vinha tratar de algum particular, foram saindo, uma a uma. Era muito comezinho receber a parteira visitas misteriosas, em busca das suas artes, das suas maravilhas.

— Trago aqui os dois mil-réis – dizia Teresinha quando se acharam a sós.

— Hoje talvez não possa fazer a reza – disse Rosa, tomando a cédula e examinando com os olhos pequeninos e cinzentos; armados duns óculos de cangalha, remendados com cera – Estou que não posso me mexer de cansada de um trabalho que me pôs sal na moleira...

E repetiu o caso com peripécias novas, apesar da impaciência da moça.

(continua...)

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