Por Aluísio Azevedo (1880)
Que poderia esperar mais, além das neves do isolamento? Rosalina desaparecera, isto é, fecharam-se todas as portas, janelas e postigos de sua alma por onde podia entrar a luz. E que seria das flores dessa pobre estufa, dessas flores tão cuidadosamente tratados por ele entre os abrolhos de uma vida de necessidades e decepções, sem um único raio do sol que até ali as sustentara? Que seria delas com a ausência absoluta de Rosalina?
O amor é para a alegria, a esperança, a honra e a glória o que a luz é para as flores; em outras palavras o amor é o matiz, o perfume, o frescor e a vida de nossos sentimentos.
As flores não podem vingar nas trevas
Assim pensava Miguel quando chegou como companheiro à casa.
O sol tinha-se erguido de todo no levante; fazia um tempo magnífico.
O moço empurrou a porta e Castor precipitou-se no interior do quarto, farejando os pobres trastes e o chão, em seguida, mordendo satisfeito a cauda e as patas, pôs-se a ladrar para a rua.
Desde esse dia, viveram os dois amigos em íntima e completa harmonia nunca se separavam, comiam juntos e dormiam perto um do outro.
Três meses depois do incêndio, Miguel teve notícia de uma família que precisava de um professor de música para quatro crianças; apresentou-se e foi aceito.
De tal momento, correu-lhe a vida mais fácil. Em pouco tempo, Miguel, cujos modos singelos e honestos atraíram incontinente sobre ele a cega confiança e simpatia dos seus protetores passou de mestre de música a servir de preceptor, acompanhava por gosto os pequenos nos seus passeios e afinal já lhes tinha amizade.
O bom rapaz desvelava-se em dar aos discípulos mais instrução do que lhe competia e até, digamos, mais do que podia - estudava durante a noite para instruílos pela manhã, com tão feliz êxito que, às vezes, gravava inalteravelmente na sua memória ainda fresca preceitos e fórmulas de literatura e belas artes, dos quais se esquecia o próprio mestre, que os não decorava. E por este sistema instruía com cabedais alheios; era, por bem dizer, o instrumento dos bons livros, mas o fato é que os pequenos se desenvolviam e tanto lhe bastava.
Os rapazes adoravam-no.
Não há como as crianças para tomar amizade à gente, e com esta cresce em geral a dos pais; os dos discípulos de Miguel estavam encantados com a boa aquisição que haviam feito. Um dia chamaram em particular o jovem preceptor, e, depois de lhe manifestarem o quanto estavam penhorados pelos seus bons esforços e pelo seu bom caráter, o quanto desejavam que Miguel continuasse em companhia deles, declararam que haviam deliberado aumentar-lhe o ordenado e fazê-lo morar em sua companhia e sob sua vista e cuidados - que Miguel era só e adoentado; que era preciso ter mais cuidado com a saúde e terminaram franqueando paternalmente ao professor um quarto cômodo e decente.
No dia imediato, Miguel e Castor estabeleciam-se em casa da família L...
Tinha por conseguinte o artista todos os elementos de uma felicidade relativa — teto, cuidados e estima. Agora possuía por bem dizer uma família; entretanto, tristeza contínua e carregada pesava-lhe deveras sobre o coração como a garra negra de um abutre. Embalde esforçava-se por esquecer de todo o pretérito e viver só do presente; embalde tentava plantar novas flores no terreno ressequido de seus afetos, que logo não rebentasse aí, sangrentas e truncadas, as raízes de sua antiga fortuna, porventura mais persistente e volumosa depois que se convertera em infortúnio.
E nesse definhar amargurado, via ele cair um após o outro, no passado, os seus dias pálidos e saudosos, sem risos nem esperanças.
De todos, procurava informar-se a respeito de Rosalina, e ninguém o esclarecia; da ilha haviam todos perdido de vista o pescador Maffei. Entre o homem rude e o homem rico, abrira o ouro largo espaço. De um lado, não se conheciam os que estavam do outro.
CAPÍTULO IX
E no cogitar doloroso da saudade, decorreram dois anos de desesperança, sem que fosse dado ao artista ter notícia da sua amada.
Já não parecia o mesmo — tornara-se trabalhador e grave. A vigília e o estudo avivaram-lhe na fisionomia os clarões da inteligência, com a mesma intensidade com que as sombras de constante tristeza lhe anuviavam no olhar a mocidade e o riso.
Bela e pensadora cabeça, quem te burilou tão sublime; a arte divina do homem ou a mão humana de Deus?
Muitas vezes o viam passar sombrio e automático, seguido dos seus discípulos e do cão; em tais momentos pendia-lhe para a terra a cabeça, como quem procura um canto onde descanse o último sono. E as pobres criancinhas, coitadas! olhavam para o mestre com os pequeninos corações estremecidos; as louras sensitivas choravam porque o viam chorar.
Num desses passeios, chegaram às ruínas da casinha branca; massa informe de pedras e barro denunciavam apenas o lugar onde crescera e brincara Rosalina. Era tudo enegrecido pelo fogo e silencioso pelo abandono; somente eles, para as bandas do mar, por entre o sussurrar das oliveiras, um pescador velho se lembrara de construir a sua choupana.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.