Por Aluísio Azevedo (1895)
Mas onde está, que fim levou, aquele airoso dançador de valsas, aquele gentil mancebo, que não seria capaz de exibir-se a ninguém, e muito menos à noiva, senão depois de caprichosamente apurado na roupa, no cabelo, nos dentes e nas unhas? aquele irresistível galanteador, que dizia coisas tão finas e que fazia versos tão lindos, e trescalava a sândalo ou cananga-do-japão? E onde está aquela mocinha vaporosa, que era toda graça, delicadeza e perfumes, e que mostrava uma cintura e uns pezinhos tão provocadores, e uma cabeça tão primorosamente penteada, e um colo, e uns olhos, e uma boca, tão misteriosos e divinos?...
— Oh! Isso foi durante o tempo do namoro! dizem eles. — Hoje somos “papel queimado!” Hoje somos “feijão com carne-seca!”
— Muito bem! replico eu; mas os dois que se amaram eram aqueles dois que desapareceram e não vós, que agora aí estais defronte um do outro, sem saber por que e para quê!
— Oh! mas agora nós nos estimamos muito mais. Se desapareceu a ilusão do amor, ganhamos em compensação um pelo outro uma bela amizade que dantes nos não ligava.
— Mas, adorável casal, tu te não constituíste para formar dois bons amigos íntimos, que nenhuma reserva têm entre si e que só desejam conservar a sua boa amizade! Tu, mancebo desiludido, e tu, querida dama despenteada, não vos unistes pelos laços da amizade, mas sim pelos laços do amor, o que é muito diferente; e, uma vez que já não existe amor entre vós, continuai amigos, mas separai-vos de corpo; que vá cada um procurar além novo consórcio para o seu amor, porque ainda podeis ser aproveitados para a única verdadeira missão que a natureza exige de vós, procriar, e procriar bem.
Ora, respondem eles. Mas nós somos felizes assim!...
— Não sois tal! Ah! eu conheço já de longa data essa confissão de felicidade a vosso modo! Vós, maridos, sois todos muito felizes; mas quem tomar a sério os vossos próprios conselhos, não se casará nunca, porque cada um de vós, enquanto pela prática justifica o casamento, vai segredando pela boca pequena, ao ouvido de cada um dos amigos: “Eu, cá por mim, não me posso queixar; fui feliz! Não tenho que dizer; mas, aceita o meu conselho — não te cases! Não te cases nunca! É um conselho de amigo, podes crer!”
E repetem quase todos eles a mesma cantiga. É difícil encontrar um marido que não tenha na ponta da língua esta frase: ”Eu não me posso queixar, mas não te cases!” sem se lembrarem os ratões de que semelhante conselho já é uma queixa.
Que diabo de felicidade é então essa, que os casados aconselham a todos os seus amigos solteiros que a evitem? Será isso egoísmo na ventura, ou falso vexame de confessar a própria desgraça?
Não, a razão é outra. Quereis saber, contraditórios casados, por que assim falais do casamento? É porque nele sois ao mesmo tempo felizes e infelizes — felizes na vossa amizade; infelizes no vosso amor.
E sois infelizes no vosso amor, simplesmente porque sois desiludidos.
Olhai o casamento entre a gente do campo. Por que razão o camponês é mais feliz no casamento do que a gente civilizada da cidade? É que lá na roça quando o João da Horta vai casar com a Joana dos Porcos já lhe conhece a medida justa da cintura, e já lhe viu os pés descalços, as unhas sujas e a cabeça despenteada; e ela vai sabendo já qual o verdadeiro cheiro que ele tem, e quais são os defeitos e as boas qualidades que o acompanham.
São antes do matrimônio o que são depois — não sofrem decepções! E, como a vida exercitada e simples do campo lhes tem naturalmente conservado melhor a integridade do corpo, e lhes tem poupado calos, enxaquecas, hemorróidas e dispepsias, a infinidade de misérias e inconfessáveis aborrecimentos que sobrevêm fatalmente na coabitação dos casais civilizados, quase que não existe entre eles.
Assim, só entre os simples, ainda se encontram casados que se amam e se desejam fisicamente depois de ter tido vários filhos; por conseguinte só entre eles as crianças, concebidas depois do primeiro parto, seriam sãs, fortes e inteligentes, se nas relações matrimoniais dos camponeses concorresse o indispensável elemento poético da imaginação, do enlevo espiritual, donde tira o filho a última daquelas três qualidades. Só esse elemento lhes falta no amor, e é por isso que o filho do homem do campo é que sempre bem constituído de corpo, mas em geral estúpido, ainda mesmo passando logo a conviver entre gente mais cultivada.
Em toda a ocorrência sexual, a ilusão fascinadora do espírito é indispensável para o perfeito equilíbrio do filho conseqüente.
Concluí pois dos meus raciocínios, não que Palmira precisasse conhecer bem o noivo antes do casamento, ou vice-versa, porque seria isso perigoso debaixo do ponto de vista da ilusão amorosa — ela não era uma camponesa; mas que deviam ambos conservar, eternamente intactas e perfeitas, as boas impressões, que um do outro tivessem porventura recebido no período em que se desejaram pela primeira vez.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.