Por Aluísio Azevedo (1887)
Magdá, sem conseguir escutar o que eles tanto conversavam, não lhes tirava os olhos de cima, profundamente entretida em ver aquilo. E, coisa estranha, em tal momento daria de bom grado os melhores diamantes que possuía para ter ali um pouco do que eles comiam lá no alto da pedreira com tamanha vontade. Ela, que já não podia sofrer os imaginosos acepipes da mesa de seu pai, sentia vir-lhe água à boca pela comida dos trabalhadores, e até parece incrível, tinhas desejos de beber da mesma garrafa em que eles bebiam pelo gargalo, fazendo questão para que nenhum lograsse ao outro.
No dia seguinte, justamente àquelas horas, apresentou-se ao pai, já vestida e pronta para sair.
— Bravo! Exclamou o Conselheiro, surpreendido pela novidade — Bravo! muito bem!
E marcou apressado a página do livro que estava lendo e, como se temesse que a filha mudasse de resolução, correu logo a buscar o chapéu e a bengala. "Ora até que enfim aquela preguiçosa se resolvia a passear!"
Quando se achavam na rua, Magdá foi tomando a direção da pedreira; o pai acompanhou-a sem proferir palavra. Só pararam lá perto.
O morro, com as suas entranhas já muito à mostra, arrojava-se para o céu, como um gigante de pedra violentado pela dor; via-se-lhe o âmago cinzento reverberar à luz do sol, que parecia estar doendo. E enormes avalanches de granito, ruídas e arremessadas pela explosão da pólvora, acavalavam-se em ciam à base da rocha, lembrando estranha cachoeira que houvera-se petrificado de súbito. Cá em baixo, daqui e dali, ouviam-se retinir ainda o picão e o macete, e lá no alto, no escalavrado cume do penhasco, quatro homens, agarrados com todos os dedos a um imenso furão de ferro, abriam penosamente uma nova mina no granito, gemendo em tom monótono e arrastando uma toada lúgubre.
De cada vez que eles suspendiam a formidável barra de ferro para deixarem-na cair novamente dentro do furo, recomeçava o choro lamentoso que, de tão triste, parecia uma súplica religiosa.
— Vamos lá?... propôs Magdá ao pai, depois de admirar de perto aquele monstro que ela contemplava todos os dias da janela gradeada do seu quarto.
— Onde, minha filha?... perguntou o Conselheiro, sem ânimo de acreditar no que ouvia.
— Lá em cima, onde aqueles homens estão brocando a pedra. Quero ver aquilo.
— Estás sonhando, ou me supões tão louco que consinta em tal temeridade? Esta pedreira é muito alta!
— Não faz mal...
— Sentirás vertigens antes de chegar ao fim!
— Mas eu quero ir!
— Deixa-te disso.
— Ora que me hão de contrariar em tudo!
— É que é uma imprudência sem nome o que desejas fazer, minha filha!
Já amuada, soltou-se do braço do pai e correu para os lados por onde se subia à montanha.
— Espera aí! gritou o velho tentando alcançá-la! espera aí, caprichosa! Eu te acompanho!
A caprichosa havia galgado o primeiro lance de pedra.
A subida foi penosa.
Ah! o caminho era muito estreito, irregular e coberto de calhaus. O pé às vezes não encontrava resistência, porque o cascalho rodava debaixo dele.
Mas subiam. Magdá, sem querer dar parte de fraca, segurava-se arquejante ao braço do pai; este mesmo, porém, sabe Deus com que heroísmo conseguia não perder o equilíbrio.
— Vamos adiante! Vamos adiante! Dizia ela, quase sem fôlego.
— Descansemos um pouco, minha filha.
Não, ela não descansaria, enquanto não alcançasse o morro. Felizmente o caminho em cima era quase plano e com pequeno esforço chegava-se daí ao lugar onde trabalhavam os quatro homens. Mais um arranco, e lá estariam.
Afinal conseguiram chegar. Mas, ah! quando a pobre Magdá, toda trêmula e exausta de forças, já no tope da pedreira, defrontou com o pavoroso abismo debaixo de seus pés, soltou um grito rápido, fechou os olhos, e teria caído para trás, se o Conselheiro não lhe acode tão a tempo.
— Magdá, minha filha! Então! então!
Ela não respondeu.
— Está aí! está aí o que eu receava! Lembrar-se do subir a estas alturas!... E agora a volta...?
— Pode voscência ficar tranqüilo por esse lado, arriscou um dos cavoqueiros, que se havia aproximado, a coçar a cabeça. — Se voscência quiser, eu cá estou para por esta senhora lá em baixo, sem que lhe aconteça a ela a menor lástima.
— Ainda bem! respondeu S. Ex. com um suspiro de desabafo.
O trabalhador que se ofereceu para conduzir Magdá era um mocó de vinte e tantos anos, vigoroso e belo de força. Estava nu da cintura para cima e a riqueza dos seus músculos, bronzeados pelo sol, patenteava-se livremente com uma independência de estátua. Os cabelos, empastados de suor e pó de pedra, caíram-lhe sobre a testa e sobre o pescoço, dando-lhe uma satírica feição de sensualidade ingênua.
— Vamos! Vamos! Apressou o Conselheiro, entregando-lhe a filha.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O homem. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7408 . Acesso em: 18 mar. 2026.