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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Amâncio hesitou em se devia ir ou não. O Coqueiro ,com a sua figurinha de tísico, o seu rosto chupado e quase verde, os seus olhos pequenos e penetrantes, de uma mobilidade de olho de pássaro, com a sua boca fria, o seu nariz agudo, o seu todo seco egoísta, desenganado da vida, não era das coisa que, mais o atraíssem. No entanto, bem podia ser que ali estivesse o que ele procurava, — um cômodo limpo, confortável, um pouquinho de luxo, e plena liberdade. Talvez aceitasse o convite.

— Esta gente onde está? perguntou, indicando o andar de cima a um caixeiro que lhe apareceu no corredor, com a sua calça domingueira, cor de alecrim, o charuto ao canto da boca.

— Foram passear ao Jardim Botânico, respondeu aquele, descendo as escadas.

— Todos? Ainda interrogou Amâncio.

— Sim, disse o outro entre os dentes, sem voltar o rosto. E saiu. — Está resolvido!pensou o estudante. — Vou à casa do Coqueiro. Ao menos estarei entretido durante esse tempo!

E voltando ao quarto :

— Não! É que tudo ali em casa do Campos já lhe cheirava mal!.. Olhassem para o ar impertinente com que aquele galeguinho lhe havia falado!...Em tudo o mais era pelo mesmo teor. — Uma súcia d’ asnos!

Começou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa, atirando com as gavetas. O jarro vazio causou-lhe febre, sentiu venetas de arrojá-lo pela janela ;ao tomar uma toalha do cabide, porque ela se não desprendesse logo, deu-lhe tal empuxão que a fez em tiras.

— Um horror! Resmungava, a vestir-se furioso, sem saber de quê. — Um horror!

E, quando passou pela porta da rua, teve ímpetos de esbordoar o caixeiro, que nesse dia estava de plantão.

CAPÍTULO V

João Coqueiro era fluminense e fluminense da gema. Nascera na Rua do Parto em uma das casas de seus pais, quando estes eram ricos.

Que o foram. Viera-lhes a fortuna do avô materno, um português ambicioso e econômico, que a conquistara no tráfico dos negros africanos; ao morrer legou à filha, ainda criança, para cima de quinhentos contos de réis. Esta, mais tarde, foi solicitada em casamento pelo homem a que pertenceu para sempre, — Lourenço Coqueiro, os maiores bigodes que nesse tempo negrejavam na Corte do Império.

Lourenço, todavia, era já um destroço quando casou. Do que fora e do que possuíra, apenas lhe restava, além do bigode, o hábito de não fazer coisa alguma; nos melhores grupos citava-se, entretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se Dom boa vontade de seus dotes pessoais e do seu belo espírito eternamente galhofeiro.

O casamento representou para ele uma tábua de salvação. A mulher adorava-o; tinha-o na conta de um ente superior; jamais vira homem tão lindo de rosto, tão insinuante no falar, tão delicado de maneiras.

Mas, pouco depois de casado, Lourenço começou a desgostá-la: era um nunca terminar de festas; a casa vivia num rebuliço constante; os intervalos das pândegas não davam sequer para a trazer arrumada e limpa. Quando não fossem bailes, eram passeios, piqueniques , manhãs no campo, dias passados na Tijuca ou no Jardim Botânico. Lourenço, às vezes, voltava ébrio, a cachimbar no fundo do carro, e a fazer carícias piegas à mulher, que, ao lado, chorava silenciosamente. Ela, coitada! Tinha muito medo sempre que o via nesse gosto, porque o demônio do homem dava então para brigar, mexia com quem passava, metia a bengala nos cocheiros e quebrava com os pés tudo que encontrasse no caminho.

Tiveram o primeiro filho — Janjão. Criancinha feia, dessangrada, cheia de asma. Até aos cinco anos parecia idiota; passava os dias a babar-se debaixo da mesa de jantar, ao pé de um moleque encarregado de vigiá-lo.

A mão desfazia-se em mil cuidadozinhos com a criança; era esta o seu enlevo, a sua vida. Mas o pai não estava por isso: — temia que o rapaz lhe saísse um maricas. Desejava-o — forte, decidido!

E, com enormes sobressaltos da mulher, tomava-o pelas perninhas magras e suspendia-o no ar.

— Os homens assim é que se fazem, minha filha! Dizia ele a rolar o pequeno entre as mãos.

E não admitia igualmente que o menino tivesse outra cama que não fosse um enxergão. Não o queria calçado, nem vestido e, em vez de estar ali a babar-se defronte do moleque, seria muito melhor que fosse correr para a chácara.

— Ele pode se machucar, Lourenço, cair! Observava a esposa timidamente.

— Pois deixa-o cair! Deixa-o machucar-se! Quanto mais trambolhões levar em pequeno, melhor depois se agüentará nas pernas!

— Mas ele é tão fraquito, coitadinho!

— Por isso mesmo! Por isso mesmo precisamos torná-lo forte! E previno-te de que já é mais que tempo de acabar com esse insuportável tratamento de “Janjão”! Aqui não há janjões! Meu filho chama-se — João! Tem o nome do avô, um herói, um fidalgo! Não desses que hoje se fazem aí a três por dois, mas dos legítimos, dos bons! Entendes tu? — dos bons!

E inflamava-se, como sempre que se referia à sua procedência. Vinha, com efeito, de fidalgos: era sobrinho bastardo de um conde português.

À mesa exigia que o filho lhe ficasse ao lado e obrigava-o a comer bifes sangrentos e tomar vinho sem água.

(continua...)

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