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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

— Perdoe, Alzira...

— Se lhe não convenho, se lhe sou perniciosa, afaste-se de mim! Ninguém o obriga a ficar a meu lado!

E arredou-se dele, para ir assentar-se em um divã. O marquês acompanhou-a.

— Se o traísse, vá! continuou ela; se lhe desse ocasião de ter ciúmes, ainda vá; mas, que diabo, eu cumpro lealmente com o que prometi e, quando não estivesse disposta a fazê-lo, di-lo-ia com franqueza, porque afinal sou livre! Como, pois, admitir que me exprobre fatos, pelos quais não sou responsável O senhor, se fez sacrifícios para obter-me, não foi sem dúvida com o intuito de praticar uma boa ação, mas simplesmente para proporcionar a si mesmo um prazer que lhe apetecia. Se fez sacrifícios, não foi por mim, foi pela sua própria pessoa; e, se não tinha elementos para a empresa, por que a empreendeu?...

— Porque a amava!

— E amava-me, porque sou bela, sou moça e estou na moda! Ora, meu caro marquês, há de convir que com isso não teve originalidade alguma!... (E soltou uma risada de escárnio). Original seria se tivesse a desvairada pretensão de ser, durante algum tempo, o amante exclusivo da condessa Alzira, sem despender alguns milhões de francos!...

— A senhora bem sabe que não é o dinheiro despendido o que eu deploro...

— Pois eu com o resto nada tenho que ver!... São-me indiferentes a morte de sua mulher e o futuro de seus filhos!... Quando o senhor se descuidou deles, quanto mais eu! ... O senhor que fosse melhor marido e melhor pai! Se há um criminoso entre nós, não sou eu decerto: na minha qualidade de cortesã, sou lógica, não me afasto uma linha do meu programa; o senhor é que se afastou dos seus deveres, na qualidade de chefe de família. Queixe-se por conseguinte de si mesmo e não me aborreça!

— E é a senhora quem me diz isto?!... exclamou o marques, abrolhando os olhos.

— Certamente, respondeu Alzira, com toda a calma.

— No entanto, volveu ele, a condessa, sabe perfeitamente que eu a tudo me resignaria, se a senhora fosse para mim um pouco mais amorosa... eu tudo perdoaria, se...

— Perdoaria?... mas eu é que não quero o seu perdão para cousa alguma... Não me sinto absolutamente culpada.

— Pois devia sentir-se! disparatou o fidalgo, fazendo-se outra vez vermelho. Tenho o direito de ser tratado melhor nesta casa!

Alzira olhou para ele sem voltar o rosto.

— Minhas palavras são amargas?... disse. É o senhor quem as provoca... Quantos aos meus atos — são irrepreensíveis!...

Esta última frase teve o encanto de transformar 0 marquês.

— Tudo isso, resmungou o queixoso, prova que a senhora nunca sentiu por mim o menor vislumbre de amor ...

Alzira soltou uma gargalhada sincera.

— Ora, marquês, não me faça rir! disse depois, cobrindo o rosto com o lenço.

— Não é debalde que todos a citam como a mulher mais insensível do mundo!

— Mas por que razão queria o marquês que o amasse? ...

— Quando por mais não fosse, por gratidão...

A condessa, já séria, mediu-o de alto a baixo.

— Nunca lhe pedi obséquios! disse — Mas aceitou-os...

— Engana-se!

— Com a senhora despendi o necessário para enriquecer cinco famílias!...

— Basta! (E ela desta vez bateu com o pé). Já me tardava que o senhor me lançasse também em rosto esse dinheiro que supõe ter gasto comigo!

E encaminhou-se lentamente até ao tímpano e vibrou-o com força.

— A senhora vai pôr-me fora?... gaguejou o marques, fazendo-se pálido.

— Não, explicou ela, muito tranqüila. Vou ordenar ao criado que não o receba quando o senhor voltar. Não tenho o direito de o mandar sair, mas tenho o de nunca mais o receber!

Um raio não fulminaria tanto o marques como estas palavras. De pálido passou novamente à cor de cereja. Hesitou um instante, limpou o suor da testa e, afinal, foi ter com Alzira, e disse empregando todo o esforço para sorrir:

— A senhora dessa forma obriga-me a não voltar... (Ela sacudiu os ombros.) E, para evitar que isso aconteça... só vejo um meio... é não sair mais daqui ...

Foram interrompidos pelo criado, que exclamou da porta, fazendo uma continência:

— O cavalheiro Bouflers!

— Bouflers?... repetiu Alzira.

— Bouflers aqui!... resmungou entredentes o marquês.

E acrescentou, dirigindo-se à condessa:

— Eis aí um... com quem a senhora não usaria da franqueza que usa comigo...

— Por que não?

— Porque é moço, é belo e tem talento...

Alzira gritou para o pajem:

— Dizer-lhe que ainda desta vez o não recebo...

— Não lhe convém recebê-lo em minha presença condessa?...

— Ah! Sim?... disse ela.

E voltou-se de novo para o criado:

— Faze-o entrar.

O criado saiu.

— Mas eu, exigiu o marquês, quero ficar ali, por detrás daquela cortina...

— Com uma condição, propôs a condessa, haja o que houver, o senhor não se baterá com ele...

— Prometo, mas a senhora não lhe dirá que o ama...

— Ah! Não! Isso não direi com certeza...

— Pois então juro que me não baterei.

— Pode esconder-se.

O criado reapareceu, erguendo o reposteiro, para dar entrada ao satírico e famoso poeta Bouflers.

CAPÍTULO XIII

Ah, mulheres! mulheres!

(continua...)

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