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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

pressentimentos; mas procurou ocultar do melhor modo que pôde suas inquietações, e premunir-se de força e resolução para afrontar os novos embates que a ameaçavam. Por um lado a atormentava a posição extrema em que se via colocada pelas instâncias do pai, posição de que não via outro meio de escapar-se, senão rendendo-se à discrição ou por meio de uma confissão, que, em vez de aplaca-lo, atrairia sobre ele a cólera de seu pai. Por outro lado a torturava a cruel incerteza em que se achava a respeito da sorte de Elias, do qual nem notícias tinha, posto que já tivesse findado o prazo de dois anos, dentro do qual prometera voltar ou dar notícias suas. Pensava na distância imensa que os separava, nos imensos perigos que o rodeavam por aqueles sertões infestados de assassinos e salteadores e infeccionados de epidemias mortíferas, e a esperança a abandonava, e sua alma se entregava a um desalento mortal.

Estava extremamente pálida e triste; liam-se no semblante os vestígios de uma noite velada no sofrimento, mas em sua fisionomia como que transluzia a altivez de uma resolução inabalável.

O Major, que espiava com impaciência o momento em que Lúcia despertasse, dirigiu-se a seu quarto, logo que a sentiu levantada.

-minha filha. . . mas estás tão pálida e desfeita! ! . . . estás sofrendo alguma coisa?

- Nada, meu pai. . . é um incômodo passageiro. Sempre que me deito tarde, passo mal.

- Ah! não admira; não estás acostumada a estas palestras e folguedos até alta noite.

- É verdade, meu pai; e quanta saudade não tenho da nossa boa vida da roça! . . . quando voltaremos para lá?

- Não sei dizer-te. Talvez breve, talvez nunca.

- Nunca! . . . como assim, meu pai?

- Para falar-te com franqueza, isto depende de ti; está em tuas mãos.

- Em minhas mãos? . . . explique-se meu pai; cada vez o entendo menos.

- Sim; de ti e só de ti depende isso.

- Não posso saber como?

-senta-te aí e escuta-me; tenho coisas importantes a dizer-te.

A estas palavras Lúcia sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, e fechar-se-lhe o coração como a um sopro gelado.

Trêmula e pálida assentou-se na cama, enquanto seu pai puxava uma cadeira e sentava-se junto dela.

-minha filha- começou o Major, abaixando cautelosamente a voz, e quase ao ouvido de Lúcia- o que vou dizer-te, quisera poder ocultar-te para sempre; não quereria por nada deste mundo tornar-te mais aflita e triste do que te vejo há certo tempo.

- Pode falar, meu pai; Deus me dará coragem e resignação para tudo, seja qual for a nova desgraça que vem anunciar-me.

- Sim, é uma desgraça, mas que tu, com uma só palavra, podes converter em felicidade para todos nós.

- Deveras, meu pai? . . . pois explique-se, que da minha parte estou pronta a todo e qualquer sacrifício.

- Em poucas palavras vou dizer-te tudo. Depois que deixamos nossa fazenda para vir especular neste garimpo, os meus negócios têm ido de mal a pior. Tenho-me visto forçado a fazer despesas que não posso comportar, e o rendimento, como terás podido observar, tem sido nenhum. Ultimamente uma sociedade em que tomei parte, não tendo dado resultado algum depois de enormes despesas, acabou de arruinar-me completamente, bem como a quase todos os outros sócios. Minha fazenda e meus escravos chegam apenas para satisfazer aos imensos encargos que contraí nessa malfadada empresa, e ficaremos por portas, se te não resolveres. . .

- A que, meu pai? . . .

- A casar com o senhor Leonel.

- Ah! isso nunca! . . .

Estas palavras escaparam ao peito da moça com espontânea e rápida explosão. O Major lançou-lhe um olhar severo e exprobrador.

Lúcia reportou-se.

-mas- continuou ela mudando de tom- que tem meu casamento com a sua quebra, meu pai?

-muito, minha filha. Leonel, sabendo que eu me achava nesses transes apertados, ofereceu-me espontânea e generosamente seus serviços e, o que é mais ainda, sua bolsa. Mas se recusas dar-lhe a mão de esposa como poderei aceita-los?

- Ah! meu pai, não me obrigue a semelhante sacrifício; por piedade! a miséria mil vezes! . . . mas já não sei o que penso, nem o que digo. . . meu pai, tenha piedade de sua filha.

- Ah! Lúcia, minha querida Lúcia! . . . pondera que não se trata somente de ti. Já não falo de mim, que estou velho, e que pouco me importa o modo por que passarei o resto de meus dias. Mas tua irmãzinha, tão linda, tão inocente, coitada! não terei a legar-lhe senão a miséria. Oh! e a miséria é tão triste para quem já viveu na abastança!

Tendo dito estas palavras o Major enxugou duas grossas lágrimas, que lhe rolavam pelas faces macilentas.

-meu pai! . . . - exclamou Lúcia, pondo-se rapidamente em pé, e apertando convulsivamente as mãos uma na outra. Depois deixou pender a fronte, abaixou os olhos e uma chuva de lágrimas, que lhe brotavam das pálpebras ardentes, circundavam-lhe as faces, e caíram no pavimento aos pés do velho. Este também levantou-se profundamente comovido, e, sustendo- a nos braços, já ia quase desistir de suas pretensões. Mas a bela e nobre alma de Lúcia já tinha aceitado o sacrifício.

(continua...)

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