Por José de Alencar (1874)
Eles penetravam no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum guerreiro ousava ofender aquele a quem Tup concedera a fonte da alegria.
Murinhém atravessou rápido a campina e apresentou-se em frente de Canicrã, chefe dos tapuias.
— Ubirajara, o senhor da lança, que empunha o arco da poderosa nação araguaia, te manda, a ti, quem quer que sejas, e a todos quantos te obedecem, a sua vontade.
O tapuia rugiu; mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o cercava, e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo sombrio e imóvel do meio dos borbotões da cachoeira.
— Os guerreiros de Canicrã só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicrã afronta a cólera de Tupã e das nações que ele gerou. Dize, mensageiro, o que pede Ubirajara ao grande chefe dos tapuias.
— Ubirajara te manda que encostes o tacape da guerra. A nação tocantim aceitou a sua flecha de desafio, e ele não consente que ninguém combata seu inimigo, antes de o ter vencido.
— Torna e dize ao grande chefe araguaia, que Canicrã veio trazido pela vingança. Pojucã, um dos chefes tocantins, penetrou em sua taba e incendiou a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.
"Ubirajara é um grande chefe; ele que diga se o pai da nação pode sofrer tão dura afronta. Canicrã escutará a voz de sua amizade. "
O chefe tapuia tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao mensageiro a haste emplumada com as asas negras do anum, que era o emblema guerreiro de sua nação.
— Toma; entrega ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.
Murinhém partiu e foi à taba dos tocantins levar igual mensagem. Itaquê escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu.
— Antes que Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do desafio, Pojucã tinha levado a guerra à taba dos tapuias.
"Canicrã veio trazido pela vingança; e a nação tocantim não pode recusar o combate. Mas Itaquê sabe honrar seu nome se Ubirajara quer, ele combaterá juntamente os dois inimigos."
O mensageiro tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois chefes. Ubirajara ouviu e meditou.
— Escuta a vontade de Ubirajara para levá-la aos inimigos. O grande chefe araguaia não roubará a Canicrã a glória da vingança; ele respeita a honra da nação tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitui o penhor que recebeste.
"Itaquê pode aceitar o combate que Pojucã foi buscar; Ubirajara não ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do pai de Araci.
"O chefe dos araguaias não carece de auxílio para triunfar de seus inimigos deseja que a nação tocantim derrote aos tapuias, para ter ele a glória de vencer ao vencedor.
"Se Itaquê não pode repelir os tapuias, Ubirajara toma a si castigar os bárbaros; e depois de varrê-los das florestas, combaterão as duas nações.
"Se os tocantins necessitam de aliados para resistir ao ímpeto dos araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que eles venham.
"Murinhém falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que a cabana onde estiver Araci fica sob a guarda de Ubirajara; quem nela penetrar como inimigo, sofrerá a morte vil do covarde."
O guerreiro deixou a voz do chefe e falou com a voz de esposo.
— A Araci levarás o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a rede nupcial e não deixe nossa cabana, enquanto Ubirajara não a for buscar.
"Conta-lhe também que o canitar que ela teceu, ainda não deixou a cabeça do seu guerreiro e há de acompanhá-lo sempre. "
A BATALHA
A um lado da imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins, do outro lado, a multidão dos guerreiros tapuias.
As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.
De um e outro campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos arremetendo travaram a batalha.
Itaquê achou-se em frente de Canicrã. Ambos se buscavam; dez vezes tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fora vencido.
Enquanto viverem os formidáveis guerreiros, não é possível quebrar a flecha da paz entre as duas nações.
Era preciso que um deles morresse para que o vencedor encostasse o tacape do combate e desse repouso à sua nação para reparar os estragos da guerra.
Quando os dois chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo ficaram imóveis, contemplando o pavoroso combate.
Ubirajara de longe, apoiado em seu grande arco, admirava os dois guerreiros e pensava qual não seria o seu orgulho em vencê-los ambos.
Durava a peleja o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o chão os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes de cada um.
Imóveis no mesmo lugar, só agitavam a cabeça e os braços; semelhantes a dois condores, que de garras presas aos píncaros do rochedo, se dilaceram com o bico adunco.
Um rugido espantoso atroou pela campina, que estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas da floresta.
Pahã, a seta, era o último filho de Canicrã. Ainda curumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro Crebã, cujo ombro mal alcançava com o braço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.