Por José de Alencar (1875)
— Uma não terá você, Burití; mas duas, com certeza.
— Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe a gente banana; o outro conserta.
— Que é que está bolindo alí no mato? Não ouviram gemer?
— Há de ser o caipora; respondeu um mais desabusado.
— Nicácio! Não brinque com estas coisas.
Entretanto Arnaldo seguia adiante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas a que o povo dá o nome de malícia de mulher por descobrir no súbito fechar das fôlhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças das meninas sonsas.
O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos; mas justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez dos pecíolos, que todavia não bastava ainda para murchar as ramas.
— Chuva!
Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se a Nicácio que estava ao seu lado; possuído do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alvíçaras dessa alegria.
— Deus a traga! disse Nicácio.
— Esta noite! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo, tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando.
— Porisso eu vi esta manhã uma formiga de asas, acudiu o Burití.
— Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz? Sabe ou não sabe onde está o diabo do velho? Voltou-se o mancebo com um modo frio:
— Quando o senhor capitão-mór Campelo m’o perguntar, eu lhe responderei.
— Ah! É isto? Pois tenha paciência, que lhe vamos na cola. Não o largo enquanto não me der conta da carcaça do Jó, que a leve o demo logo duma feita.
Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indiferente por entre as árvores. O feitor e seus acólitos iam-lhe no encalço, quando súbito o perderam de vista. Correramlhe sus, bateram o mato; mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo.
— É à-toa! disse o João Coité. Se o diabo do surrão velho já o embruxou também.
X – O rosário
Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica.
Assomando sôbre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania para receber no tálamo da criação ao rei da luz.
Na umbria da serra e da espêssa mata que a cinge, a fazenda ainda permanece no crepúsculo da alvoroçada, quando já o dia fulgura pelas várzeas e campinas dalém.
Mas ao fluxo da luz, que sobe e a inunda como a corrente de um rio caudal, aquela zona ensombrada vai rapidamente imergindo-se nos esplendores da aurora.
Com a irradiação da manhã derrama-se a aura que anima a solidão. Dessa terra combusta por longo e abrasado estio, já reçumam os viços que anunciam a poderosa expansão de sua fecundidade.
Na noite seguinte à chegada, como previra Arnaldo, tinha caído a primeira chuva. Desde então, com pequenos intervalos, passavam os aguaeiros do natal que são os repiquetes do inverno.
Embora falhem muitas vezes essas promessas, o sertanejo, como os animais e toda a natureza que o cerca, recebe sempre com intenso prazer as alvíçaras de bom ano.
A primavera do Brasil, desconhecida na maior parte do seu território, cuja natureza nunca em estação alguma do ano despe a verde túnica, só existe nessas regiões, onde a vegetação dorme como nos climas da zona fria. Lá a hibernação do gêlo; no sertão a estuação do sol.
A primeira gota d’água que cai das nuvens é para as várzeas cearenses como o primeiro raio do sol nos vales cobertos de neve: é o beijo de amor trocado entre o céu e a terra, o santo himeneu do verbo criador com a Eva sempre virgem e sempre mãe.
Nunca vi o despertar da natureza depois da hibernação. Não creio, porém, que seja mais encantador e para admirar-se do que a primavera do sertão. Aquí a transição se opera com tal energia que assemelhava-se de certo modo à mutação.
Aquela várzea que ontem ao escurecer afigurava-se aos vossos olhos o leito nu, pulverento e negro de um vasto incêndio, bastou o borraeiro da noite antecedente para cobrí-la esta manhã da virescência sutil, que já veste a campina como uma gaze de esmeralda.
Não há em cada uma das raízes do capim sêco e triturado mais do que um brôto imperceptível; porém rebentam os gomos com tanto luxo e abundância que, à guisa dos tênues liços de uma teia cambiante, formam êsse gaio matiz da primavera.
Aquela árvore também que ainda ontem parecia um tronco morto já tem um aspecto vivaz. Pelos gravetos secos pulula a seiva fecunda a borbulhar nos renovos para amanhã desabrochar em rama frondosa.
Que prodígios ostenta a fôrça criadora desta terra depois de sua longa incubação! Dela pode se dizer sem tropo que vê-se rebentar do solo o grêlo e crescer, assistindo-se ao trabalho da germinação como a um processo da indústria humana.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.