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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Mudaram essas disposições logo ao outro dia, pelo cuidado que teve o rapaz de levar no bolso do gibão uma broa seca de milho, a qual lhe servia não só para ir merendando enquanto copiava, mas também para familiarizar-se com a ninhada, espalhando as migas, que ela vinha comer a seus pés. 

A cabo de uma semana estavam íntimos, a ponto que em toda confiança deixava a galinha ao Ivo apanhar-lhe algum dos pintainhos, e alisar-lhe a penugem dourada. Então levou o rapaz de casa certo papelinho, onde havia pintado um coração com asas que voava pelos ares, como se fora um pombinho, e que era de súbito trespassado por uma seta cruel. 

Esse papelinho feito em rolo e atado com um fio de seda cor-de-rosa, guardara-o o rapaz no peito da véstia com todo o resguardo porque nem o perdesse, nem o amarrotasse. 

Na volta do meio-dia, vinda que foi a ninhada ao cheiro da broa, apanhou o Ivo um dos pintainhos, e pondo-lhe no pescoço à guisa de colar o papelinho enrolado, guardou-o na gaveta, tendo o cuidado de o regalar de migas, para evitar que piasse muito forte e avisasse o tabelião. 

Não tardou que assomasse à porta o rostinho de camafeu da Marta, que vinha a recado da mãe, por causa das perseguições dos rapazes do prelado. Como os olhos da menina, embora com disfarce, de curiosos que eram, todas as vezes se enfrestavam pelo vão dos armários, viram o pintainho, que lhes mostrava o Ivo, e mais a redoma de papel que tinha ao pescoço. 

Se ela entendeu a mímica, não se sabe; mas no dia seguinte quando a ninhada beliscava-lhe os pés impacientes pelos farelos da broa, notou o brejeiro do escrevente que um dos pintainhos tinha uma crista artificial. Era nada menos que uma perpétua branca, na qual contra todas as noções da botânica, achou o nosso namorado um perfume suavíssimo. 

Desde então se estabeleceu por aquele novo correio uma correspondência inocente e pitoresca; pois de uma parte escreviam as pinturas e da outra as flores. 

É preciso advertir que apesar da esperteza do Ivo, não passavam de todo desapercebidas do Sabino estas artes. 

 

XVI 

 

PERIGO DE METER UMA FRANGA NO POLEIRO, QUANDO NÃO 

SE TEM O COSTUME DE LIDAR COM A CRIAÇÃO 

 

Cedo veio uma manhã, fatal manhã, que dissipou os fagueiros sonhos do nosso Ivo, e anuviou-lhe os dias prazenteiros, ali fruídos naquele soturno aposento, que lhe fora um seio, de Abraão. 

E todavia raiava o sol brilhante, e o céu ria-se de tão azul e transparente. Os passarinhos chilreavam entre os ramos das árvores, meneadas pela fresca brisa do mar, que já começava a soprar; e o escrevente, de coração farto e espírito folgazão, esforçava-se com ardor e prazer no trabalho, para adiantar o cumprimento da obrigação, de modo a distrair uns momentos, os mais felizes da sua vida, quando pingasse meio-dia da torre de São Bento. 

Ainda faltava cerca de meia hora; mas a galinha, ou porque esse dia se expedisse nas suas correrias, ou porque se fosse cada vez mais amorando ao lugar, apresentou-se com a ninhada. Recebeu o rapaz com o costumado alvoroto, que logo cedeu a grande desconsolo; pois desta vez não traziam os pintainhos a prenda a que se acostumara o nosso namorado. 

Já se sabe que não ganharam as migas da broa; além de parecer-lhe justo castigar a pouca diligência do mensageiro que vinha debalde, entendia o rapaz que era o modo de escorraçar dali a ninhada, e fazer que a menina reparasse o seu esquecimento, se não era antes alguma pirracinha. 

Piavam os pintos e cacarejava a galinha, a espicaçarem-lhe as pernas, e ele a enxotá-las com a ponta do pé e a régua; donde tal ruído se levantou, que já era um escândalo naquele soturno asilo da murmuração forense. Felizmente o Sebastião Ferreira, quando se embrenhava em uma alfarrábio, não dava pelo que ia cá fora. 

Nessa conjuntura soou pelo cartório um “zute”, ao qual levantaram os escreventes a cabeça de supetão para fitarem o vulto do tabelião. Este segurando na mão esquerda um auto, com a direita erguida e espetado para o Ivo o indicador, três vezes fechou em croque e abriu a formidável falange. 

De pronto acudiu o rapaz ao chamado, acercando-se da mesa grande. 

— Um edital por este teor e forma! disse o tabelião com o laconismo do costume. 

Mas a galinha e sua ninhada não deixavam de atormentar o Ivo à gana das migas de broa; e faziam tal matinada e cacarejo por baixo da mesa e entre as pernas do Sebastião Ferreira, que deu êle enfim pelo atrevimento dessa profanação de seu cartório transformado em terreiro de criação. — Enxote-me esta cambada, moço! gritou o velho escriba. 

Fê-lo o Ivo, mas debalde, que a ninhada lhe voltava no encalço: 

— É teimar em vão, já agora tomou esta manha. 

— Feche a porta que já não tornam. 

— E o buraco? retorquiu o Ivo apontando para o rombo. O remédio é prendê-la no galinheiro. 

— Pois prenda-a, e não me atormentem. 

Isto, disse o Sebastião ao Ivo e à galinha conjuntamente. 

(continua...)

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