Por José de Alencar (1864)
—De amar não; mas dessas ilusões efêmeras, que murcham o coração. Quero o meu bem vivo, para dá-lo todo a quem for dele senhor. Talvez aquele a quem o der o dilacere. Embora! Devem de haver delicias inefáveis neste mesmo suplício! Depois que supremo consolo!... Sentir o orgulho de só ter amado uma vez na vida!...
Sentir que não restam do primeiro e único amor senão cinzas do coração extinto! Esquecido já do desengano que recebera há pouco, eu palpitava sob a palavra apaixonada de Emília, como se fora o feliz que devesse merecer tão sublime paixão! —Medo de amar? exclamou ela. Pois saiba que mãe nenhuma espiando o primeiro sorriso nos lábios do seu filhinho, teve os estremecimentos de ventura com que eu espreito o primeiro palpite do meu coração. Meu Deus, que júbilo imenso não deve ser o amor, quando a esperança dele nos enche assim de contentamento! Foi há cinco meses... quando o senhor voltou... Cuidei que ia amar.
—A mim? —Sim, ao senhor. E desde então interrogo minha alma; escuto-me viver interiormente... Lembrei-me até de escrever o que eu sentia. Seria a história do meu coração. No dia em que ele me dissesse que eu o amava, sem que o senhor me perguntasse, sem o menor acanhamento, lhe confessaria. Acredite!...
—E seu coração até agora nada lhe disse ainda, D. Emília?...
—Meu coração diz-me que eu o estimo tanto como a meu pai; que o senhor ocupa uma grande parte da minha vida; que sua lembrança gravou-se e não se apagará mais nunca em meu pensamento; que as horas que passo a seu lado são as mais doces para mim; que nenhuma voz toca mais suavemente as cordas de minha alma. Eis o que me diz o meu coração; mas ele não diz que pelo senhor eu sacrificaria tudo, as considerações do mundo, minha família, as minhas afeições e os meus sentimentos; ele não diz que o senhor bastaria à minha vida, e a encheria tanto, que não houvesse mais lugar nela para outro pensamento e outro desejo. Não diz isto; logo eu não o amo!...
—Mas, D. Emília, atenda! A senhora ilude-se talvez...
—Sei o que pensa. Na sua opinião o amor assim é impossível! Pois juro-lhe!... eu só amarei assim. Emília ergueu-se.
—Ao menos diga-me. Posso ainda ter uma esperança? —Eu a tenho!... respondeu-me.
Se o mundo soubesse um dia a história que eu te conto, Paulo, ele exclamaria sem duvida: "É impossível! Essa mulher não existiu!" E o mundo teria razão.
A Emília, de que eu te falo, não existiu para ninguém mais senão para mim, em quem ela viveu e morreu. A Emília, que o mundo conhecera e já esqueceu talvez, foi a moça formosa, que atravessou os salões, como a borboleta, atirando às turbas o pó dourado de suas asas. A flor, de que ela buscava o mel, não viçava ali, nem talvez na terra. Seria flor do céu?
XIII
HAVIA no tratamento de Emília uma variação incompreensível.
As vezes era uma ternura suave e compassiva, como se ela quisesse consolar-me por não ser amado; outras vezes parecia que a minha-paixão a irritava. Tinha então o coração áspero e a palavra acre; mas era justamente nessas ocasiões de tormenta, que eu via cintilar em seus olhos um raio de amor, e sentia vibrarem as cordas frementes de sua alma.
Uma noite pedi-lhe que não dançasse mais com o Barbosinha; não que eu tivesse ciúmes de semelhante fátuo; mas era ele desses homens ridículos cujo contato mancha uma senhora. Emília recusou, e eu voltei despeitado. No dia seguinte encontrei-a agastada comigo:
—Não consinto mais que me ame!... disse-me ela voltando as costas.
Poucos instantes depois, passou pelo braço do Barbosinha e lançou-me este desafio: —Tire-me do braço dele, se quiser!...
Emília tinha sobretudo um zelo excessivo de sua espontaneidade.
Receava ela que a menor graça feita às minhas súplicas, valesse como uma prova de amor? Quando lhe pedia alguma cousa, mesmo pequena e insignificante, dessas que a moça a mais austera pode conceder a um indiferente, ela recusava sempre, e com tal firmeza, que me tirava a coragem de insistir.
Se eu me agastava, escarnecia de mim; se me resignava e esquecia sua recusa, vinha espontaneamente com uns singela, mas altiva dignidade, conceder-me alguma prova de afeição, tal que eu nunca me animara a esperar.
Lembra-me de uma vez, que, insistindo eu por um botão de rosa que ela tinha nos cabelos, Emília conservou-o no seu penteado por muitos dias até secar; como se achasse um prazer infinito em prolongar assim tacitamente a sua recusa. Dias depois, sem que eu lhe pedisse, de improviso, deu-me o seu retrato.
—Guarde-o para lembrar-se de mim! Depois da noite em que estivemos juntos à, borda do lago, Emília parecia evitar-me. Tinha decorrido uma semana. Eram oito horas da manhã; manhã de inverno, coberta de espessa cerração, que peneirava no ar uma garoa finíssima.
Resolvido a não ir à cidade senão mais tarde, estava eu sentado à janela, donde avistava a casa de Duarte. Esperando ver Emília passar na varanda e cortejar-me de longe, como às vezes costumava, eu refletia sem querer sobre esse caráter original de moça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.