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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Ribeiro – Ah! Mas não se incomodem; eu me encarrego do que for preciso.

Luís – Perdão, Sr. Ribeiro; aprecio a sua delicadeza; mas ela não me dispensa de cumprir o meu dever.

Ribeiro – Creio que é a mim que pertence como pai de sua filha...

Luís – Não senhor: a obrigação de ampará-la é minha e ninguém ma pode contestar. Sou seu parente; e represento aqui sua família.

Meneses – Não há dúvida, Sr. Viana; mas permita-me que lhe diga também que quando se trata de uma boa ação não reconheço em ninguém o direito de excluir-me dela. Sou pobre...

Ribeiro – Não se trata de fortuna, Sr. Meneses: nem um de nós é rico.

Araújo – Pois então façamos uma coisa: associemo-nos, e partilhemos todos o prazer de fazer o bem.

Luís – Não é necessário.

Ribeiro – É ser egoísta, Sr. Viana.

Luís– Desculpe: se estivesse no meu lugar faria o mesmo.

Ribeiro – Estão batendo.

Helena – Vou ver.

Meneses – Pois advirto-lhe que não me sujeito.

Luís – Se o senhor tivesse prometido a uma mãe quase moribunda restituir-lhe sua filha, consentiria que outros a ajudassem a cumprir essa promessa?

Meneses – Por que não? Seria orgulho...

Luís – Talvez, Sr. Meneses; mas um orgulho legítimo. O que sofri por ela dá-me esse direito.

Meneses – Compreendo e respeito essa dor.

CENA IV

(Os mesmos e Vieirinha)

Ribeiro – Que vem fazer aqui?

Vieirinha – O meu negócio não é com o senhor.

Helena – É comigo.

Vieirinha – Justamente. Saiba que fez muito mal em escrever-me.

Meneses – Já eu o tinha dito.

Vieirinha – Ah! Está por aqui, Meneses?

Meneses – Peço-lhe que esqueça do meu nome.

Vieirinha – Que quer dizer isto?

Araújo – Quer dizer que há certos conhecimentos que desonram um homem honesto.

Vieirinha – Não entendo.

Luís – Eu lhe explico. Tenha a bondade de retirar-se.

Vieirinha – Depois de dizer algumas palavras a esta mulher.

Helena – Já não sabe como me chamo?

Ribeiro – De que te admiras? Já não tens dinheiro para dar-lhe.

Helena – Que quer de mim? Vem restituir o que roubou?... Quanto ao que lhe dei não é necessário.

Vieirinha – Não quero que me escreva. Suas cartas podem comprometer-me; estou em vésperas de casar-me.

Helena – Que tem isso?...

Vieirinha – Podem suspeitar que tenho relações com gente de tal qualidade.

Helena – E o senhor envergonha-se?...

Vieirinha – Não lhe parece que é uma honra...

Helena – Não se envergonha, porém, do que praticou; não se lembra que, por mais de um ano, foi sustentado por uma mulher da minha qualidade.

Vieirinha– Não dou peso ao que diz.

Helena – E não deve dar mesmo: porque a mulher que chega a amar um homem como o senhor é bem desprezível!... (Vieirinha quer sair)

CENA V

(Os mesmos e Carolina)

Helena – Pois não! Agora há de ouvir-me!

Araújo (à Carolina) – Sente-se melhor?

Carolina – Pouco... Mas os senhores aqui... Luís... Sr. Ribeiro...

Ribeiro – Incomoda-lhe a minha presença?

Carolina – Não!... Mas por que não a trouxe?

Ribeiro – Nossa... Sua filha?...

Carolina – Tinha tanta vontade de vê-la!...

Ribeiro – Espere!... Voltarei antes de uma hora com ela.

Helena – Por que te levantaste, Carolina? Estás tão fraca!....

Carolina – Falavas tão alto!...

Helena – É este sujeitinho... Tu o conheces bem! Fez-me exasperar!... diz que se envergonha de conhecer-me... porque vai casar-se.

Carolina – Casar-se?... Ele!... Com quem, meu Deus?

Meneses – Com a filha de um homem de bem.

Araújo – Que não o conhece certamente.

CENA VI (Carolina, Luís, Meneses, Araújo, Helena e Vieirinha)

Helena – Hei de contar-lhe uma história. Ah! As minhas cartas o comprometem!...

Veremos as suas...

Vieirinha – As minhas?...

Helena – Os bilhetinhos que me escrevia pedindo-me que lhe valesse, que fosse desempenhar o seu relógio.

Araújo Serão um bom presente para o futuro sogro do senhor.

Helena – Está dito; vou mandá-las amanhã! Tenho-as aqui.

Vieirinha – Helena!...

Meneses (a Araújo) – Como lhe avivou a memória. Já sabe o nome.

Vieirinha – Escuta!

Helena – Não me comprometa, meu senhor!

Carolina – Vem cá, Helena.

Helena – O que queres?

Carolina – Nunca te pedi nada. Dá-me estas cartas.

Helena – Para quê?

Carolina – Dá-me!

Luís – Que vai fazer?

Carolina – Vingar-me!... Aí tem!... rasgue essas provas que o podem denunciar; case-se com a filha desse homem de bem; entre no seio de uma família honrada; adquira amigos!...É a minha vingança contra essa gente orgulhosa que se julga superior às fraquezas humanas.

Luís – Não fale assim, Carolina; a sociedade perdoa muitas vezes.

Carolina – Perdoa a um homem como este; recebe-o sem indagar do seu passado, sem perguntar-lhe o que foi; contanto que tenha dinheiro, ninguém se importa que a origem dessa riqueza seja um crime ou uma infâmia. Mas, para a pobre moça que cometeu uma falta, para o ente fraco que se deixou iludir, a sociedade é inexorável! Por que razão? Pois a mulher que se perde é mais culpada do que o homem que furta e rouba?

Meneses – Não, decerto!

(continua...)

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