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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— Se algum dia me casar, replicou ela sorrindo, há de ser com a condição de não mostrar.

— Havemos de discutir essa condição.

—Vamos mudar de conversa?

— Como quiser; temos muito tempo para continuá-la.

Enquanto Amélia o olhava surpresa, Horácio voltando-se para o grupo das senhoras, tomou parte na conversação geral.

— Já sabem a novidade, minhas senhoras?

— Qual delas? Há tantas.

— A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira mão, de caminho para aqui.

— Algum casamento, aposto.

— E eu sei de quem.

— Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; quem sabe? respondeu Horácio, relanceando um olhar para Amélia. Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile, um baile de estrondo.

— Aonde?

— No Cassino?

— No clube?

— Em casa de Azevedo.

— É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!

— Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso à realização vai uma grande distância. Eu desejo muita coisa que não alcanço, e nem ao menos posso ver. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questão, por ocasião de uma saúde. Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui, me deu a notícia do grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!

— Quando é o dia?

— No primeiro do mês próximo. Ponham desde já em contribuição as lojas e modistas; eu, o que posso, é oferecer-me com muito gosto para admirá-las a todas, e achar a cada uma de per si mais elegante do que as outras juntas. Se Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de Tróia.

— Nem Homero por conseguinte, replicou um literato.

— Homeros sempre os há. Quando não encontram os heróis já feitos, inventam-nos, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O mesmo sucede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não acham ninfas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide para pendurarem a lira.

Amélia ficara triste e preocupada; escutava a palavra volúvel do moço com um sentimento indefinível de angústia; parecia-lhe que era seu amor por ela, que Horácio rasgava aos pedacinhos, como uma página querida, abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquela conversa.

Uma amiga reparando na tristeza da filha de Sales e no olhar que em certa ocasião lhe deitara Horácio, disse ao ouvido da moça sentada a seu lado:

— Amélia ficou lograda!

— Como?

— Creio que Horácio está justo com outra.

— Quem lhe disse?

— A tristeza de Amélia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando falava de um casamento que se há de saber amanhã.

— É verdade. Com quem será?

— Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que saírem da igreja, o marido leva-a para o colégio do Hitchings; e deixa-a lá como pensionista, enquanto ele vai a Paris aperfeiçoar-se na escola dos maridos.

"Esta senhora é uma sátira viva; sua conversa parece um fogo de artifício; dirse-ia que o seu gracioso traje é todo composto de alfinetes, que ela vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos açucarados, como confeitos de carnaval.

"Oculto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro, e não quero comprometê-la com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas."

Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horácio tomou o chapéu e retirou-se. Não eram nove horas; esta circunstância mais entristeceu Amélia, e mais excitou a atenção da moça maliciosa.

À porta da casa de Sales encontrou Horácio seu tílburi. Mandou o cocheiro esperá-lo no Largo do Machado, e ele, tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.

Horácio pertencia à escola daqueles que entendem, que nunca é tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Ele compreendia o alea jacta est por esta forma prudente e razoável. César, tendo lançado a ponte sobre o Rubicão, via de longe em Roma a ditadura, e mais tarde a púrpura imperial, portanto fez ele muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já não opunha obstáculo. Mas se em vez do poder, César encontrasse no caminho a derrota, a ponte lançada lhe serviria para voltar às Gálias, e ele teria o cuidado de queimá-la depois que tornasse a passar.

Como César, ele tinha lançado a ponte com aquela palavra dita a Amélia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicão do casamento?

Era sobre tão importante questão que o leão queria refletir, fazendo a pé o trajeto entre as Laranjeiras e o Largo do Machado.

(continua...)

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