Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ADRIANO – Desculpe; o meu amigo Fábio assegurou-me que se tinha entendido com o senhor sobre o nosso negócio...
VENCESLAU – O sr. Fábio nem me falou, nem me apareceu, e com a devida vênia, não havia de que falar; porque o prazo é fatal.
ADRIANO (Perturbado.) – Fábio!... é impossível!...
VENCESLAU – É tão possível, como é certo que o prazo fatal... chegou... e...
ADRIANO – Senhor... eu pensava... (Agitadíssimo.) tenha a bondade de acompanhar-me... (Indo.)
VENCESLAU – Pois não! eu sou o mais humilde criado de v. ex.... (Indo.)
CLARIMUNDO – Para que segredos inúteis? ... (A Venceslau.) senhor... senhor...
VENCESLAU – Venceslau Inocêncio da Caridade para servir a v. ex.
CLARIMUNDO – Sr. Venceslau, o sr. Adriano não pode atender hoje a negócio algum... tem a esposa entre a vida e a morte!...
VENCESLAU – Que desgraça! juro que sinto minto... mas o prazo é fatal.
CLARIMUNDO – E quem lhe pede que sinta ou não sinta? (Consulta o relógio.) Ao meio-dia em ponto pode ir no escritório do sr. Adriano levantar o seu depósito de seis contos de réis. (Confusão de Adriano.)
VENCESLAU – Humilde criado de v. ex.... como o prazo era fatal... ah! ah! ah! (Rindo.) eu não desconfiava... mas nos casos em que o prazo é fatal... humilde criado de v. ex.... (Vai-se.)
CLARIMUNDO – Esperem-me ambos. (Entra no gabinete.)
CENA VIII
ADRIANO e CINCINATO
CINCINATO – Coragem! o maior perigo vai passar...
ADRIANO – Oh!... e como!... este depósito... eu não tenho dinheiro...
CINCINATO – Tinha-o eu... não para o jogo, nem para Dionísia... tinha-o eu, e te esquecias de mim; mas o sr. Clarimundo não está pobre... é rico, e isso é muito melhor para nós ambos...
ADRIANO – Rico!... e salva-me!... (Silêncio.) mas... se não fosse ele... Cincinato! há seis meses eu era o mais feliz dos esposos e o meu crédito igualava à minha probidade; vida serena em casa, estima geral no público, fortuna próspera abençoavam a minha honra, o meu amor e o meu trabalho: oh!... porque não morri há seis meses!...
CINCINATO – Para dª. Helena não ficar viúva... em toda esta meada eu sinto a mão de Deus sobre a cabeça do anjo.
ADRIANO – O jogo e uma mulher perdida, destruíram em breves semanas, como dois incêndios, a minha fortuna, a minha honra e mancharam o meu amor... e pelo jogo, que é vício aviltante, e por essa mulher, que todos podem comprar, hoje um usurário me faria recolher à prisão e marcar na minha fronte o selo da maior ignomínia; porque hoje ele poderia ter-me chamado... estelionatário... ladrão... Oh!... eu começo a pressentir que estou salvo; mas a vergonha e o opróbrio estão aqui! (Aponta o coração.) na consciência algoz.
CENA IX
ADRIANO, CINCINATO e CLARIMUNDO
CLARIMUNDO (Dando um papel a Adriano.) – Entrega esta carta de ordem à casa comercial a que é dirigida, e que a espera desde ontem: em meia hora no teu escritório, em uma aqui. Se tens a desgraça de dever a Fábio, manda imediatamente pagar-lhe: Cincinato, acompanha-o e volta com ele. Vai... apresenta-te... (A Adriano.) então?... vai! (Adriano ajoelha-se.) Que é isto? ...
ADRIANO (Trêmulo e comovido.) – Helena... que eu não vi... (Soluçando.)
CINCINATO – Ele tem razão!... (Enternecido.)
CLARIMUNDO (Comovido.) – Vem... um instante só... da porta do quarto...
(Leva-o pela mão; e logo depois volta, trazendo-lhe um pouco à força.)
CINCINATO (Comovido.) – Querem atirar-me no sentimental... eu protesto.
CLARIMUNDO (Abraçando Adriano.) – Vai com Deus!... (Cincinato vai-se, levando Adriano.)
CENA X
CLARIMUNDO e logo JOSÉ
CLARIMUNDO (Acompanha os dois até à porta; enxuga as lágrimas; senta-se, parece sofrer; levanta-se, vai à porta do interior e chama com voz abafada.) – José! (Entra José.) Dize à sra. d. Úrsula que eu lhe peço o favor de dar-me uma palavra. (Vaise José; Clarimundo vai trancar a porta de entrada e senta-se até que Úrsula entra.)
CENA XI
CLARIMUNDO e ÚRSULA
ÚRSULA – Aqui estou.
CLARIMUNDO – E Helena dorme ainda?...
ÚRSULA – Dorme: deixei a criada no quarto para que ela, no caso de despertar, não se assuste, vendo-se a sós com o doutor que lhe é desconhecido. (Clarimundo vai trancar a porta do interior) Porque tranca a porta?...
CLARIMUNDO – Para que ninguém perturbe a nossa conversação. v. ex. fazme a graça de sentar-se? (Aproximando sua cadeira.)
ÚRSULA (Sentando-se.) – E o senhor?
CLARIMUNDO – Ficarei de pé.
ÚRSULA – O senhor me confunde...
CLARIMUNDO – Confundi-la-ei talvez. O que me trouxe do Rio da Prata, minha senhora, foi o cuidado da sorte de Helena e de Adriano; a este vim achar arruinado pelo jogo e pela ligação com uma mulher corrupta; àquela encontrei resistindo nobremente a um plano infame de sedução e martirizada pelo conhecimento da infidelidade do marido. É v. ex. quem me pode explicar completamente estes fatos.
ÚRSULA – É uma inquirição! com que direito?...
CLARIMUNDO – Com o direito do passado que a acusa nas circunstâncias do presente! v. ex. não há de matar impune uma virtuosa esposa.
ÚRSULA – Senhor!... (Levantando-se).
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.