Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Seguindo algumas vezes com os olhos a “Bela Órfã”, ele sentia... mas era esse o sentimento que ainda Cândido não ousara classificar. Ele olhava de relance apenas; ouvia-a com indizível enlevo; tinha de cor o eco de suas pisadas; mas não se atrevia a dizer a si próprio o que sentia por Celina.
Ao resto da sociedade pagava Cândido cumprimento por cumprimento, delicadeza por delicadeza.
Um só homem havia ali de quem o mancebo se afastava: era Salustiano. Antipatia inexplicável tinha entre eles dois levantado uma barreira, ou cavado um abismo.
Por conseqüência, devemos concluir que, apesar da presença de Salustiano, o coração de Cândido agradavelmente se dilatava naqueles serões?... Antes de assim concluirmos, cumpre primeiro lembrar-nos de que Cândido era um moço pobre e sem nome, e em seguida estudarmos a fisiologia do coração do pobre, e a fisionomia da sociedade em que ele vive; sociedade geralmente pervertida, que repele sem discutir a pobreza e o desvalimento.
Estudemos, pois, e comecemos pela sociedade.
Pois que na vida moral e física do universo é tudo mais ou menos compensado, cumpria que, em paga de seus mil dissabores, provasse o homem pobre uma feliz compensação. Ele, que de tantas coisas carece na triste vida que vive; ele, verdadeiro Tântalo, que vê no mundo um mar de gozos, e a nenhum desses gozos pode tocar com os lábios; ele devia achar na sociedade daqueles que mais têm, uma hora de esquecimento daquilo que em vão deseja.
Mas o que é que todos os dias estamos vendo?...
Nós não queremos falar do homem intrometido que, pobre ou não, em toda parte aparece, arranca à força o seu quinhão em tudo, não querendo ver a cara má que lhe fazem, nem querendo ouvir a indireta insultante que se lhe atira ao rosto. Falamos, criamos para dele falar, o pobre cheio de mérito e de pudor, que vê, que ouve, que observa, e que sente.
O que é que lhe dá a sociedade?... o que é que dá a ele, tão escondido por sua modéstia, que precisa de uma mão que o levante para aparecer, e ser visto?... o que é que lhe dá?...
Quereis ver como a semelhante respeito se caracteriza a sociedade?... Pois bem.
O pai de família segue esse homem com os olhos, e quase que se incomoda se ele olha para uma de suas filhas, porque o pai de família tem medo desse olhar do pobre; do pobre que não pode sustentar o peso de uma carteira, onde se julgue seguro o porvir de uma mulher.
O mancebo não procura, foge antes do jovem pobre, porque receia que sua amizade pesada lhe seja; que ele o ocupe alguma vez... ele, que nada tem para poder servi-lo um dia.
E aqueles que não são pais de família, nem mancebos, e que contudo são ricos, olham para o homem pobre por sobre o ombro, envergonhar-se-iam de lhe dar o braço num passeio, e quase que têm pejo de o considerar de sua mesma espécie.
A mulher... oh! mas em honra da verdade digamos aqui: a mulher é apenas que ainda retém alguma generosidade e nobreza no meio desta nossa perversão tão grande; a mulher está aí no jogo de altas inspirações e sentimentos elevados, envergonhando o homem todos os dias. Mas pode ir o pobre até a mulher?... como? se para chegar até ela é preciso vencer essa barreira de gelo, essa massa imunda que a prende como, se adiante da mulher está o homem?...
E quereis saber o que se pretende e se consegue com isso?... que uma linha divisória separe os filhos de Deus; que o mundo pobre faça seu ninho muito à parte, e não vá conspurcar o céu da riqueza, que a casa do rico não seja empestada pelo hálito do pobre!...
Erga-se embora o pai de família, e diga que nós mentimos; brade o mancebo, e jure que insolente aleivosia lhe levantamos. Realmente um ou outro pai de família, um ou outro mancebo desmente essa regra; mas o gênero humano aí está em totalidade demonstrando-a na prática de um modo abominável.
Será que o gênero humano esteja assim todo, todo pervertido?... não. Em regra geral, cada homem individualmente tomado, cada um de per si repele a teoria infernal, mas vai realizá-la na prática; porque cada um de per si diz que não é ele que há de emendar o mundo, e, em uma palavra, porque esse ente abstrato, pervertido, degenerado, imundo, a nossa sociedade enfim, aceita, abraça a teoria, e, como já dissemos, horrivelmente a pratica.
É por isso que a sociedade não discute entre o rico estúpido e o pobre instruído: a vitória cabe sempre ao primeiro.
É por isso que ela, sem pudor, deixa a um canto a pobreza honrada, e festeja, lambe os pés da riqueza, mesmo indignamente adquirida.
É por isso que a porta que se não abre ao pobre modesto e nobre, se escancara
ante o milionário imoral, cuja presença em uma casa é ás vezes o anúncio da desonra.
É por isso... mas basta. E se a sociedade disser que mentimos, nós a mandaremos olhar para si mesma; e ela há de por força corar de vergonha, observando-se.
Ainda se o caminho da fortuna e da riqueza se facilitasse a todos os homens...
mas não; uma porta de ferro a fecha, e o pobre não pode vencê-la, porque não tem a chave que abre todas as portas... o dinheiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.