Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“Assim meu avô disse: ‘Vai-te para sempre de meus olhos e’ se tens piedade de nós, muda teu nome, eu cumpri e cumprirei o que ele quis, pois nunca mais lhe apareci; e, se não mudei o meu nome, pelo menos até agora ainda ninguém me viu assinar o sobrenome que eu tinha de família.
“Minha avó disse: Torne-se em pedra o pão que comprares com o dinheiro pelo qual vendeste os brilhantes da cruz da família. O ladrão não me faça corar de vergonha, aparecendo ainda diante de mim... O meu pão não se tem tornado em pedra, porque o dinheiro com que o compro é ganho com o suor do meu rosto; mas cumprirei também a vontade de minha avó; enquanto ela não se convencer que eu fui vilmente caluniado, não terá, eu o juro, não terá de envergonhar-se, vendo-me diante dos seus olhos.
“Meu pai disse: Consuma o fogo todas as minhas riquezas, antes que tu possas tocar numa só moeda dos meus cofres. Não quero, portanto, um ceitil da herança que me deve tocar pela desgraçada morte de meu avô e de meu pai; cedo todos esses bens para dote de minha prima, e se Vossa Mercê os não quiser aceitar, divida-os com a minha boa Lúcia e os pobres. Quanto a mim, respeitarei a vontade de meu pai, não querendo nada das suas riquezas.
“E minha mãe disse: Vai, meu filho; mas volta um dia com o rosto descoberto para provar a tua inocência. Eis aqui enfim a ordem de minha mãe, que eu ainda não cumpri, mas espero cumpri-la toda inteira, sim, minha mãe! para ir, beijando a sepultura em que descansas, dizer às tuas cinzas — já tenho o rosto descoberto! já provei a minha inocência!
“Mas, enquanto a vontade de minha mãe não for executada à risca, não, nenhum daqueles que injustamente me condenaram me tornará a ver.
“Vossa Mercê, meu tio, que nessa hora de maldições estava também na sala, e não praguejou contra mim; porque hesitava... não hesitei, e creia que me caluniaram.
“Minha prima, que também aí estava, e parecia nada compreender do que se passava, compreenda agora que há no mundo uma serpente venenosa, que morde na honra do homem! é a calúnia, foi ela quem me mordeu.
“Lúcia chorava porque sabia que eu não era capaz de cometer uma ação infame; não se arrependa de ter chorado; ela me fazia justiça; e depois de minha mãe, foi o único coração que tive, onde a minha inocência achasse abrigo.
“Mas eu vejo que tenho abusado da paciência de meu tio; esta carta já vai sendo por demais extensa. Meu tio fica por ela sabendo as minhas inabaláveis resoluções, e, portanto, termino-a aqui. A bênção de minha avó e a amizade de meu tio, outrora as pedi inutilmente; agora só por outra maneira as pretendo conseguir: consegui-las-ei. Há, porém, alguma coisa que me não envergonho de mandar, é uma saudade à minha pobre Lúcia.
“Cidade da Bahia... junho de 1844.
Lauro.”
— Então, minha mãe, exclamou Hugo, o rapaz está louco ou não?... Vão agora arrancá-lo de lá.
— Faz bem em não vir, disse Ema; porque me esconderia para não ser obrigada a ver-lhe o rosto.
— Mas, minha mãe, ele escreve de tal modo, que custa muito a não pensar que o caluniaram!
— Também tu, Hugo?
— Minha mãe, é que há uma força tal nas palavras deste pobre Lauro!
— Palavras!... disse Ema, e não é este tempo de escândalo, de irreligião e de liberdade, o tempo das palavras?... todos vós falais bem, falais assim; mas em outrora um só cabelo da barba de um homem valia mais do que valem os vossos mais sagrados juramentos!
— Eis aí minha mãe mortificando-se sem razão.
— Pois não é assim?... tantas leis, tantas constituições, tantas câmaras, e para quê? para desmoralizar o povo, para perverter a mocidade, como se perverteu aquele rapaz até chegar a roubar um objeto sagrado!
— Porém, minha avó, se fosse uma calúnia como ele jura que é?...
— Até tu, Honorina?... até tu, quando foi a ti mesma que ele roubou?...
— A mim, minha avô?... mas como eu não me lembro...
— Oh! era preciso que não falássemos nisso, como não falamos, para ocultar no silêncio a nossa vergonha: lembrar que um nosso filho cometeu tal crime é aprofundar ainda mais uma chaga, que nunca pode sarar; mas enfim... eu quero contar-te, e ainda mais que por direito te pertencia o objeto sagrado. Escuta.
Honorina chegou-se para sua avó com viva demonstração de curiosidade.
VI
A herança paterna
— Honorina, disse a velha Ema depois de empregar alguns instantes em coordenar as suas idéias, foi há muito tempo, talvez há seis séculos passados, que sucedeu o que te vou contar.
Nas imediações da cidade de Lisboa havia uma família que se compunha de marido e mulher, cujos nomes não puderam chegar até nós, e de uma moça que era filha deles, que se chamava Arabela; pobre, mas temente a Deus, essa família passava os seus dias sossegada e felizmente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.