Por Lima Barreto (1905)
Atravessando a extensa galeria, o padre João sustentava na mão esquerda uma candeia de azeite, enquanto a direita comprimia nervosamente o cabo negro de um punhal.
Vencida a pequena escada que dava acesso para a sala onde D. Garça costumava fazer as suas orações, ei-lo de pé, em frente ao oratório onde bruxuleava a luz mortiça de uma lamparina.
Depôs no chão a candeia de azeite que uma forte lufada de vento apagou.
Depois, pé ante pé, dirigiu-se à sala de jantar e daí por um pequeno corredor chegou à porta do dormitório de sua ex-amante.
Os lábios do jesuíta tremiam de ódio e comoção; entretanto os seus dedos crispados comprimiam com fúria o cabo do punhal preparando o golpe certeiro e decisivo.
A porta estava semi-aberta; olhou.
Os seus olhos, acostumados à treva, divisaram sobre o leito alvíssimos dois corpos humanos ligados num mesmo abraço.
O ódio irrompeu então, indomado e terrível na sua alma, presa de uma angústia sem nome; venceu a pequena distância que o separava do leito e com o punhal erguido, pronto a vibrar o golpe, contemplou um momento aqueles dois corpos adormecidos.
Depois, num movimento rápido e seguro, a lâmina branca do punhal cravouse inteira no peito de Duclerc.
Ele não dera um gemido; o ferro atravessara-lhe o coração, matando-o instantaneamente.
D. Garça despertou sobressaltada; os seus olhos negros e faiscantes distinguiram na treva do quarto o vulto do jesuíta; compreendeu tudo e, sentindo ao lado o corpo exânime e frio do seu amado, exclamou:
— Mata-me, Jean.
—Não, não te matarei, tornou este; tu és agora minha, somente minha, não tenho mais rival.
— Enganas-te! exclamou D. Garça, erguendo meio corpo do leito.
Era ele a quem eu amava; mataste-o, pois bem, jamais te tornarei a pertencer, covarde!
As faces do jesuíta contraíram-se num rictus de ódio terrível; uma nuvem negra de vingança e de vergonha passou ante os seus olhos esgazeados; a sua mão crispada mais uma vez se ergueu e a um golpe de punhal o corpo de D. Garça caiu redondamente no leito.
No dia seguinte espalhava-se por todo S. Sebastião a notícia da morte misteriosa de Duclerc.
Em vão se fizeram pesquisas para a descoberta do assassino do capitão francês e da bela italiana.
Mas deu muito o que falar a estranha coincidência de ter sido encontrado no mesmo dia, no leito da sua cela do colégio, o corpo inanimado do padre João de Jouquières e junto ao seu cadáver um vidro de veneno e um punhal tinto de sangue. Aqui termina o manuscrito.
Fim
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.