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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Era um dia de domingo, um desses dias de expansão popular, em que, no mar como em terra, há quase sempre uma alegria Nova entre os que passaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consciência tranqüila de quem vive honestamente à custa do próprio esforço. A baia de Nova Iorque tinha o festivo aspecto de um dia de regatas. Esquadrilhas de iates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes e asseados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas de recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de música, que tocavam alegremente o Yankee doodle. À cerração matinal sucedera um sol frio de inverno, que dava vontade a gente improvisar piqueniques à beiramar, fora da cidade, longe dos botequins e das brasseries, nalgum verde recanto onde houvesse bastante quietação e muita água, num lugarejo calmo de subúrbio donde se pudesse ver ao longe, mas muito ao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada...

O Barroso tinha fundeado em frente à Battery Square e com pouco recebia a visita oficial do cônsul brasileiro e d'outras autoridades do país, sendo para notar que uma das primeiras pessoas que pisaram a bordo foi o repórter do New York Herald, a importante folha americana tradicionalmente conhecida no mundo jornalístico. Um cavalheiro irreprochable, de cartola e sobrecasaca de pano, bem-apessoado, bigode louro e olhos azuis, verdadeiro tipo de ianque, amável e expansivo. É escusado dizer, num parêntesis, que no dia seguinte a quilométrica folha descrevia, com uma precisão fotográfica, o cruzador brasileiro, sem esquecer mesmo um carneiro de estima que trazíamos e que o espirituoso noticiarista incluía na lotação do navio, emprestando-lhe qualidades invejáveis. Creio até que o pobre lanígero figurou na folha ianque entre os heróis de Humaitá!

Satisfeitas as formalidades oficiais da chegada, trocadas as salvas do estilo, nada mais nos restava senão ver de perto a bela cidade.

Nova Iorque estava quieta, muitíssimo quieta, com as suas praças desertas, com os seus parques silenciosos, fechado o comércio a ponto de não se encontrar aberta uma só tabacaria, sequer um botequim. Isso, porém, não nos causou estranheza. Sabíamos que o domingo nos Estados Unidos é um dia completamente inútil, um dia triste para os centros populosos. Toda a gente deserta para os arrabaldes em seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem ermas e cheias de silêncio, entregues à vigilância dos policimen. Todas as casas comerciais, todos os armazéns, todas as fábricas, todos os estabelecimentos públicos conservam-se fechados e taciturnos, como numa cidade abandonada.

Nova Iorque, a opulenta e alegre cidade cosmopolita, tinha esguichado fará Nova Jersey, para Brooklin e para Conney Island. Toda aquela multidão laboriosa e ourissedenta, que nos dias de trabalho se atropela na Broadway, bebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hotéis ambulantes e nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira, sem se inquietar com o futuro.

Por isso é que não se deparava ninguém nas ruas, por isso não se ouvia o barulho infernal das carroças e das carruagens.

O domingo no país dos ianques é para se divertir, para se descansar, para se jogar o criket, para se passear a cavalo, para se apostar regatas, de modo que o protestantismo americano nada tem de comum com o protestantismo britânico.

Enquanto nos domingos (a dar crédito na crônica) o inglês reza a Bíblia no interior de seu home, em companhia de sua mulher e de seus filhos, o americano, ou melhor, o ianque, exercita os músculos e bebe cerveja fora da cidade.

Não admira semelhante discordância, quando é sabido que a religião protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito leiam-se os belos capítulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lefêvre), estuda, com uma graça especial e encantadora, cheia de humorismo e de senso crítico, as instituições religiosas na América do Norte. Paris en Amérique é um dos livros mais curiosos e originais que eu tenho lido sobre os Estados Unidos.

Em tais condições, estrangeiros no meio de uma cidade deserta, imagine-se o nosso embaraço, a triste situação em que nos colocava a curiosidade.

Os raríssimos transeuntes que porventura encontrávamos, marinheiros ou vagabundos que desciam para o cais da Battery, olhavam-nos com um ar de surpresa, embasbacados, medindo-nos de alto a baixo, com se fôssemos uns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.

Entretanto, não perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte, saltamos dentro do primeiro veículo que passava, uma velha carruagem de aluguel, cujo boleeiro custou deveras a compreender que desejávamos fazer um passeio ao redor da cidade.

Oh! yes! Yes!...

E disparou a trote largo por aquelas ruas fora.

De modo que nesse dia vimos Nova Iorque à vol d'oiseau e por um prisma de tristeza e monotonia.

Em compensação a nossa demora naquela cidade ia ser mais longa que em qualquer dos outros portos do itinerário.

(continua...)

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