Por Adolfo Caminha (1895)
Abriu a janela para entrar luz e começou a se despir, trauteando qualquer coisa, o olhar perdido lá fora no ar imóvel, no azul coruscante... O calor abrasava. Nenhuma aragem sequer. O sol das duas horas caía obliquamente, pondo reflexos de ouro sobre os telhados, vitorioso e torrencial, pulverizando crisólitos de brilho raro ao longe nas vidraçarias... Uma opulência de luz nunca vista!
Aleixo despiu-se, pela primeira vez acendeu um cigarro, deitando-se à larga na velha cama de lona. — Passa ! Que forno!...
Queria descansar um bocado, esperar Bom-Crioulo té às cinco horas, dormir uma soneca. Saíra de bordo muito cedo porque ajustara com o negro, e agora não tinha remédio senão esperar naquela pasmaceira, naquele calor. Enfim, como fizera quarto a noite passada, ia ver se conseguia dormir...
Não chegou ao fim do cigarro, um detestável mata-ratos que Bom-Crioulo esquecera sobre a mesinha, e que abriu-se de todo em sua mão desajeitada. — Não sabia que diabo de gosto o dos fumantes. Qual! decididamente não se acostumava com o fumo. Vinha-lhe logo a dor de cabeça...
Pôs-se a olhar o teto, as paredes, um retrato do imperador, já muito apagado, que viera na primeira página de um jornal ilustrado, preso em caixilhos de bambu, um cromo de desfolhar, examinando com atenção o pequeno aposento, os móveis — a mesa e duas cadeiras —, como se estivesse num museu de cousas raras.
Adormeceu justamente quando soaram duas horas no relógio de D. Carolina, embaixo, no primeiro andar.
Acordou indisposto, sobressaltado, num banho de suor, a língua seca — torcendo-se em espreguiçamentos de quem dormiu toda uma noite.
O sol abrandara um pouco e já havia nuvens no alto, quebrando a monotonia do azul. — Nada; com certeza Bom-Crioulo não vinha mais, pensou o grumete. Diabo de insipidez!
De resto, o negro não lhe fazia muita falta: estimava-o, é verdade, mas aquilo não era sangria desatada que não acabasse nunca...
Essa idéia penetrou-o com uma lembrança feliz, como um fluido esquisito que lhe inoculassem no sangue. — Podia encontrar algum homem de posição, de dinheiro: já agora estava acostumado “àquilo”... O próprio Bom-Crioulo disseram que não se reparavam essas cousas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de Bom-Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a saúde, o corpo, a mocidade... Ora, não valia a pena!
Saltou da cama e foi se vestindo devagar, assobiando baixinho, dominado por aquela idéia. — Estava aborrecido, muito aborrecido; precisava mudar de vida...
— Dá licença?
— Oh! madame...
Era a portuguesa: ainda não tinha visto o “seu bonitinho”, dera-lhe uma saudade...
— Bom-Crioulo não veio hoje?
Não, não tinha vindo. E Aleixo contou a paisagem do negro para o couraçado, o desgosto de Bom-Crioulo, a vida de trabalho que o outro ia levar...
— Coitado! lamentou D. Carolina. Mas há de vir à terra...
— Sim, por que não? Sempre há de vir. Não será tanto como na corveta...
— Coitado!...
— Tem aí uma cadeira, ofereceu Aleixo. Por que não se senta?
— Que calor, hein? tornou a mulher sentando-se. Temos chuva.
E logo, muito curiosa:
— Vai sair?
— Vou dar uma volta, passei o dia tão aborrecido...
— Que falta, o negro, hein? acentuou a portuguesa sublinhando um risinho, abanando-se com o avental.
Tinha-se sentado, muito vermelha, o casaco arregaçado, os pés nus dentro de uns tamancos de pano com que batia a roupa no quintal.
— Não, disse Aleixo, com um desdém na voz. Aquilo já está me aborrecendo...
— Oh! Já?... Muito cedo, homem.
E fraternalmente:
— Pois é uma boa criatura, coitado. Eu, às vezes, tenho-lhe pena.
— É porque madame não sabe quem está ali... Muito bom, mas quando se zanga, Jesus! chega a meter medo...
— Assim?
— Ora!...
— Pois, meu filho, se eu lhe disser que nunca vi Bom-Crioulo zangado...
— Uma fera!
Aleixo estava defronte do espelho acabando a toilette. O cabelo cheio d’óleo, escorrido e liso, tinha um brilho fugaz de seda preta. Abria-o de um lado, puxando em pasta sobre a calote esquerda, até quase a sobrancelha. Era uma de suas grandes preocupações — o cabelo bem penteado, úmido sempre. Que trabalho para lhe dar jeito! Desmanchava-o um sem número de vezes, tornava a acertá-lo, e, afinal, depois de repetidas tentativas, punha o boné devagar, jeitosamente.
— Pronto! fez ele dando a última demão.
— Gosto de ver um marinheiro assim, elogiou a mulher, erguendo-se para endireitar a gola do grumete, que estava dobrada. Ninguém me venha falar em homem porco.
E colocando-se diante de Aleixo, os braços em arco e as mãos nos quadris:
— Está mesmo d’encantar, o diabinho! Vai daqui namorar alguma biraia no Largo do Rocio, aposto!
O efebo soltou uma risada muito sem gosto, olhando-se ainda uma vez no espelho.
— Qual o quê, madame! Vou daqui ao Passeio Público; às nove horas, o mais tardar, cá estou de volta.
— E não me convida?
— Quer ir, vamos...
— Não, obrigada; bom proveito e volte direitinho, é o que eu quero...
Foram saindo.
— Mas, olhe, tornou D. Carolina com resolução, no alto da escada. Preciso lhe falar: volte cedo.
— Por que não diz agora?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.