Por Adolfo Caminha (1893)
D. Terezinha começara a desconfiar das intenções de João da Mata. Via-o agora muito babado pela Maria, convidando-a sempre para junto de si, perseguindoa mesmo e notava que a rapariga ultimamente já não era a mesma para ele, evitavao, fugia de sua presença, esquivava-se como uma gatinha corrida pelo macho.
Um dia, vendo-a triste a um canto, perguntou-lhe o que tinha. Maria conservou-se calada e séria, sem erguer a cabeça. D. Terezinha quis atribuir aquele estado à ausência do Zuza, mas notou que havia no olhar da afilhada um como ressentimento novo, de momento. Nesse dia, justamente, João esbravejara muito contra a rapariga, ameaçando-a espancar se ela ousasse “pensar” no estudante. Desde então começaram as suspeitas de D. Terezinha que conhecia certas tendências instintivas de João. — De certo alguma coisa se passava entre eles. Esses sobressaltos, essas arrelias... — Entretanto, deixava as coisas no mesmo pé, sem dizer nada. Talvez fosse desconfiança...
E o mais curioso é que João agora tinha rusgas consecutivas com a mulher, sem motivo, por ninharias, ao voltar da Repartição ou pela manhã, antes de se ir.
Um belo dia rompeu deveras. João sentiu logo o sangue subir-lhe à cabeça, e, numa excitação violentíssima, num daqueles ímpetos de raiva que lhe eram tão comuns devido à sua natureza irascível, ao seu temperamento bilioso, desandou furioso contra D. Terezinha, arremetendo com a mão fechada, fulo de cólera. — Naquela casa quem mandava era ele, ficasse sabendo! Não aturava desaforos de mulher alguma quanto mais dela que não tinha nada com a sua vida!
— E fique você sabendo, acrescentou com a sua vozinha estridente, dando murros na mesa. Fique você sabendo que uma mulher amigada é como se fosse uma fêmea qualquer, ouviu? Se duvidar ponho-lhe no olho da rua!
Palavras não eram ditas, D. Terezinha saltou como uma fera congestionada, os olhos acesos de um fulgor fosforescente, desesperada, possessa, os braços em arco e as mãos nas ilhargas:
— Você o que quer sei eu, seu cachorro! Você quer é abusar da menina e plantar-lhe um filho no bucho, seu grandis...
Não acabou a palavra, porque o amanuense, ferido no seu amor-próprio, na sua autoridade de chefe da casa, cego, tresvairado, encheu-lhe a boca com uma formidável bofetada que fê-la rodar.
Maria ficou perplexa, cosida à janela, muito trêmula, sem saber o que fizesse, muda, como petrificada. Nos seus magníficos olhos cor de azeitona perpassou a sombra duma desgraça. O padrinho tinha enlouquecido, pensou. E um pavor infantil tomou-a toda.
Mal acordada dos efeitos da agressão, titubeante, manquejando com a mão no queixo, D. Terezinha foi estender-se lá dentro da alcova, soluçando tão alto que se ouvia fora, na rua.
Defronte, em casa da viúva Campelo, estava formada a panelinha do costume — o Loureiro, a viúva e a afilhada.
Eram quase nove horas da noite.
A Lídia com um pulo veio saber, muito curiosa, o que sucedera, tinha ouvido choro... Se precisassem alguma coisa...
Mas o amanuense tranqüilizou-a: que não era nada; coisas de mulher, coisas de mulher...
A Campelinho compreendeu que se tratava de assuntos íntimos e rodou nos calcanhares. — Não era nada, era o doido do amanuense que andava aos pontapés.
— Gente canalha! fez o guarda-livros inalterável. Que educação, que fina educação, recebia-se naquela casa!
Logo no dia seguinte à chegada do Zuza — uma segunda-feira luminosa de outubro, muito azul no alto, com irradiações no granito das calçadas e uma aragem insensível quase a arrepiar a fronde espessa dos arvoredos da praça do Patrocínio — Maria do Carmo foi recebida na Escola Normal com um chuveiro imprevisto de — parabéns — que as normalistas lhe davam à guisa de presentes de ano. — Parabéns! Parabéns! repetiam arrastando os pés para trás, abrindo alas, como se cortejassem uma princesa. — Tinham combinado saudá-la pela chegada do Zuza com esse espírito irrequieto de colegial despeitado que se apraz em chacotear outro, e talvez com uma ponta de inveja a mordiscá-las por dentro.
A praça permanecia numa quietação abençoada, com os seus renques de mungubeiras muito sombrias, verde-escuras e eternamente frescas, a desafiar, frente a frente, a pujança outonal dos cajueiros em flor que os liceístas castigavam a pedradas.
Meninos apregoavam numa voz clara e vibrante:
— Loteria do Pará, 30 contos!
O edifício da Escola Normal, a um canto do quadrilátero, pintadinho de fresco, cinzento, com as janelas abertas à claridade forte do dia, tinha o aspecto alegre duma casa de noivos acabada de caiar-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.