Por Inglês de Sousa (1891)
Fidêncio olhou vagamente para o teto, para as paredes, para os móveis, indeciso, abstrato, metendo a mão entre o cós das calças e a camisa para acariciar o fígado. As paredes brancas, dum branco sujo, apertavam-no. O retrato de Saldanha Marinho morria no quadro de madeira preta, na tinta pardacenta da litografia ordinária, salpicada de excremento de moscas. Mais abaixo o Sonho de Pio IX, salientado pelo dourado velho da moldura, degenerava numa confusão de pernas largas e de seios pontudos, de taças redondas e de flores chatas, de batinas e coroas num plano só, sem perspectiva. Do outro lado Ganganelli, entre as quatro obreias verdes, na alvura duvidosa do papel de impressão, erguia a mão sem vida segurando os raios pontificais, longas linhas trêmulas e quebradas, a crayon, para fulminar a Companhia, representada por um padre moço e barbado, mas muito branco, barba tesa e braços enormes, parecido com D.Vital. E por baixo, a custo, aparecia, na meia-tinta, a legenda, em versais gastas, mal impressa e incorreta: O PAPA CLEMENTE XIV EXTINGUE A COMPANHIA DE JESUS. VIDE O TEXTO.
Na parede da esquerda, próximo à porta da rua, o cabide parecia sustentar a custo o velho chapéu de pele de lebre, o velho guarda-chuva cor de pinhão e a opa do Santíssimo Sacramento, que tinha agora uma aparência desmaiada, de velho balandrau surrado em procissões e Nossos-pais sem conta; e o candeeiro de petróleo lançava do grande bojo de vidro ordinário, faceado, uma luz amarelada e baça, com reflexos esverdeados de azeite de mamona.
Tudo parecia mais velho; as mesas, os tinteiros, os bancos, a cadeira de palhinha. Do chão escuro e fétido, do teto negro, das paredes úmidas, dos móveis, das roupas, dos contornos de todos os objetos, dos quadros parietais, dos gestos dos personagens, da sua fisionomia dura e chata de figuras malfeitas, vinha como uma emanação de tédio, que ia subindo, espalhando-se pela casa, e depois saía pela janela, para lançar-se sobre a vida toda, estúpida e molhada.
Fidêncio abriu os braços, retorceu-os num espreguiçamento, vergando o corpo para trás, desarticulando as mandíbulas num longo bocejo, e deixou escapar um grito agudo e prolongado que cortou de chofre o silêncio do dia. Na casa fronteira abriu-se um pouco a janela de pau pintada de azul, e pela frincha estreita, uma mulher espiou, curiosa.
A Maria Miquelina, equivocando-se, gritou da varanda:
— Já vai, já vai, seu Chico, tenha um mocadinho de paciência. — Ah, o café! disse o Fidêncio, sorrindo.
Ressoaram no corredor as tamanquinhas da caseira azafamada.
— Pensei que era o café de João Pinheiro! exclamou quando a mulata apareceu à porta da sala, trazendo na mão uma grande xícara de louça azul, de que saía um fumo tênue e um odor forte a café quente.
— Que João Pinheiro, seu Chico?
— Não sabes a história do João Pinheiro, rapariga!
— Como havera de saber, seu Chico? Só se era o João Pinheiro que matou outro dia o Joaquim Feliciano naquele encontro da beira do lago...
— Não, Maria Miquelina João Pinheiro era um fazendeiro da minha terra, muito conhecido e apatacado
— Pois como eu havera de saber dele, se eu nunca estive lá nesses Rio de Janeiro...
E, intrigada, a caseira colocou sobre a mesa grande a palangana de café, e pôs-se a interrogar o professor com os olhos. Fidêncio começou, narrando:
— João Pinheiro era um fazendeiro apatacado, mas muito amigo de guardar o que tinha. A fazenda dele ficava à beira da estrada e era escolhida pelos viajantes para descansarem durante as horas mais quentes do dia, pois era justamente no meio do caminho da cidade... da cidade... enfim, duma cidade para outra. Sempre que chegava algum viajante, João Pinheiro gritava para dentro:
— Moleque, traze café para este homem.
O moleque, lá de dentro, respondia:
— Já, sim, siô.
O viajante ficava com a boca doce, esperando refrescar-se com o cafedório do João Pinheiro.
Passava um quarto de hora... e nada.
— Moleque, olha esse café! gritava o fazendeiro. — Já vai, sim, siô.
O viajante, que já estava com a garganta seca de engolir em falso, concebia uma esperança.
Passava outro quarto de hora... e de café, nem lembrança.
— Moleque, vem ou não vem esse café? perguntava o João Pinheiro.
E o moleque:
— Já vai já, sim, siô.
O viajante puxava o relógio, sentindo não ter tempo de esperar que fizessem o fogo.
Passava outro quarto de hora:
— O moleque do dianho, então esse marvado café não vem hoje? — Já vai agora mesmo, meu siô.
O viajante levantava-se e despedia-se, farto de esperar.
— Este dianho de moleque, dizia o João Pinheiro, apertando a mão ao hóspede, esse dianho de moleque é assim mesmo.
E acrescentava muito aborrecido:
— Que vexame sair V.S.a sem beber café!
Montando a cavalo, o viajante ouvia ainda o moleque gritar lá de dentro:
— Já vai, sim, siô.
A Maria Miquelina pôs as mãos nas ilhargas, rindo muito.
— Este diacho de seu Chico tem cada história! Pois o homem havera de fazer isso mesmo?! Ara tome lá o seu café, que este não é do João Pinheiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.