Por Domingos Olímpio (1903)
Dois mil réis por esse tesoiro?!... Eis um bom negócio, Matilde – disse, dirigindo-se à esposa, formosa senhora, que, em adorável traje matinal, um roupão de cambraia e rendas, entrava no gabinete - Esta moça quer vender os cabelos...
— Oh! É horrível – exclamou Matilde penalizada.
Deslumbrada com a presença da senhora, cujos belos olhos, claros e suavíssimos, se fitavam nela compassivos, ergueu-se e arrancando o pente, deixou caírem as fartas, fulvas madeixas encaracoladas.
— Magníficos – continuou Matilde - Mas... para que serviriam? São muito diferentes dos meus...
Faça-me esta esmola, minha dona. Veja, não é por me gabar, parece cabelo de branca... Pegue neles, não tenha nojo...
Matilde, após curta hesitação, tomou as madeixas nas mãos alvas e delicadas; fixou nelas os finos dedos, com unhas de nácar, e apertou-os a rangerem como meadas de retrós.
— Que belos, que extraordinários cabelos!... Com que os trata?
— Pente e água do pote. Então? Fique com eles que tenho muito gosto nisso...
— Fico, sim... – respondeu Matilde, tomando súbita resolução – Dou-lhe cinco mil réis por eles; mas... imponho uma condição.
— Quer cortá-los já?... – atalhou Luzia, vivamente.
— Ao contrário – continuou a senhora – não os cortará. São meus, mas ficam na sua cabeça.
Iluminou-se o semblante de Luzia de irrepreensível alegria; seus olhos se umedeceram e os lábios, trêmulos, murmuraram:
— Deus lhe pagará, santa criatura!... Nossa Senhora lhe dê uma boa sorte ... Oh! a senhora não parece deste mundo... Perdoe-me!... Eu tinha um grande aperto aqui, no coração... Faz-me bem chorar...
— Aqui tem o dinheiro – disse o Promotor, entregando uma nota a Luzia – Amanhã, talvez tenhamos boas notícias...
— Amanhã?... – perguntou Luzia, guardando o dinheiro no seio e compondo os cabelos.
— Sim. Creio que teremos novidade... Vá descansada, que aqui fica o seu advogado – disse ele, indicando Matilde.
E voltando-se para ela, enquanto Luzia partia, alastrando agradecimentos, disse-lhe em tom de afetuoso carinho, muito enternecido:
— Bom negócio fizeste, meu amor! Belíssima ação praticaste... És um anjo de bondade...
CAPÍTULO X
Rosa Veado voltara extenuada de penosíssimo trabalho. Sentada à porta da casa de taipa, onde morava com os filhos entre o cemitério velho e a Fortaleza, contava o caso às vizinhas atentas, acocoradas em redor dela, curiosas e admiradas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.