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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

— Como não, minh’alma? Pode vosmecê ficar descansada por esse lado, que esta que aqui está não lhe dará razões de queixa!

E já parecia radiante com aquela expectativa de ter uma enferma à sua guarda. Uma enferma nas condições da filha do Conselheiro era o seu ideal. E, por cima de tudo, "bom ordenado, comida com fartura, seu copo de vinho ao jantar e daí até, quem sabe? talvez seu vestidinho de vez em quando..."

— Não há dúvida, foi um bom achado!

Um achado! Ela é que foi um bom achado para Magdá. Esta nunca houvera tido criada tão alegre, tão amorosa e tão diligente no serviço..

Além do que: muito sã, muito limpa e muito séria. Perto daquela figura socada, de carne esperta e luzente, a pobre senhora ainda parecia mais magra e mais pálida; gostava, porém, de senti-la ao seu lado, aquecer-se naquele calor de saúde, parasitar um pouco daquele húmus ressumbrante de seiva, sorver aquela forte exalação sanguínea de fêmea refeita e bem adubada.

Nunca entravam em confidências e palestras, que a orgulhosa filha do Conselheiro não dava para essas coisas; mas a mesquinha enferma gostava de deitar-se sobre um tapete no chão, defronte da janela do quarto, a aí ficar, cismando nos seus tédios, com a cabeça pousada no morno e carnudo regaço da criada. Às vezes adormecia assim e então abraçava-se com ela e enterrava o rosto entre as almofadas dos seus peitos, respirando com um regalo inconsciente de criança que já não mama, mas ainda gosta de sentir ao pegar no sono a calentura do colo materno.

Em breve, a Justina era tão indispensável para Magdá, quanto uma ama a um orfãozinho recém-nascido. A infeliz moça passava assim muito melhor; conseguia ficar com algumas coisas no estômago e tinha certa regularidade no sono. Um dia, em que a rapariga lhe pediu licença para ir a Belém ver o filhinho que estava à morte, ela quase teve um ataque, tal foi a sua contrariedade.

— É por pouco tempo... esclareceu aquela — Eu volto logo. Três ou quatro, quando muito; de mais deixo uma outra no meu lugar...

Foi, sempre foi, mas à senhora tanto custou a sua ausência que jurou nunca mais consentir que de novo se separassem. Ficou nervosa e impertinente que causava pena. Veio-lhe outra vez a mania das rezas, voltaram-lhe os monólogos à meia voz e os sobressaltos sem causa aparente.

— Maldito pequeno! lembrar-se de cair doente! e logo agora!

A Justina demorou-se mais do que contava. Uma semana depois da sua partida Magdá, que não havia comparecido ao almoço, fez voltar o lanche das duas da tarde, que o pai lhe mandara levar ao quarto.

— Não me aborreça! Gritou ela à substituta da Justina; uma sujeita alta, ossuda, de nariz comprido e mal encarada. Cheirava a morrinha de cachorro, Magdá não a podia ver.

— Saia daqui! Não ouviu?

A mulher observou com a sua voz grossa e compassada:

— O senhor disse para a senhora não deixar de tomar ao menos o caldo, que foi temperado por ele.

— Papai que me deixe em paz! Ponha-se lá fora! Ponha-se lá fora!

A criada saiu, tesa que nem um granadeiro, a resmungar com a bandeja nas mãos; e Magdá fechou a porta sobre ela, com estrondoso ímpeto, atirando-se depois no divã e sacudindo a cabeça como se estivesse sufocada.

— Que gente, meu Deus! Que gente!

E levou uma boa hora a fitar um só ponto, com os olhos apertados e as sobrancelhas franzidas e mais retorcidas que um recamo japonês. Ergueu-se afinal, inteiriçada num espreguiçamento suspirado e longo, deu em seguida alguns passos indolentes pela alcova, tomou um resto de leite frio que havia numa xícara sobre a mesa, e encaminhou-se sonambulamente para a janela. Aí encostou o rosto entre os dois varões da grade e segurou-se com as mãos nos outros que ficavam mais próximos.

— Ah!... respirou, igual ao cego que obtém, depois de grandes esforços, chegar ao ponto que deseja. E olhou à toa para os fundos do céu que se estendiam lá por detrás do horizonte. E seu olhar errou pelo espaço, perdido como andorinha doida a que roubassem o ninho, percorrendo inquieta e tonta, de um só vôo, léguas e léguas de azul, até ir afinal cair prostrada, de asas bambas, no cimo da pedreira que lhe enfrontava com a janela.

Prendeu-lhe toda a atenção o que se passava ali; os trabalhadores suspendiam por instante o serviço, alvoroçados com a chegada de uma raparigona que lhes levava o jantar. Que alegria! A cachopa era sem dúvida mulher de um deles, o mais alto e mais barbado, porque ela, mal soltou no chão o cesto de comida, lhe arrumou uma carícia de gado grosso um murro nos rins, e retraiu-se logo, a rir, toda arrepiada, esperando que o macho correspondesse. Este cascalhou uma risada de gozo alvar e ferrou-lhe na anca a sua mão bruta de cavoqueiro, tão escrostada e escamosa, que se não podia abrir de todo. Depois; acercaram-se de um pedaço de pedra, em que a mulher foi depondo o que trouxera na cesta; e de cócoras, ao lado uns dos outros, puseram-se todos a comer sofregamente, no meio de muito rir e palavrear de boca cheia.

(continua...)

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