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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

- Por uma razão muito simples, porque tenho as provas de que ele é o único autor da história.

- Apresente-as.

- Não é preciso - atalhou Quintino -, eu explico tudo.

- Este senhor - acrescentou, voltando-se para mim. - Este senhor não é mais que um simples romancista.

- Como? - disse eu.

- Sim, não é mais do que um simples romancista. A sua intenção dele era somente fazer um romance, um romance para A Semana e, na falta de melhor assunto, agarrou o meu!

- O seu?

- Sim, o meu, a minha questão, o meu Castro Malta.

- Como é lá isso? - perguntei.

- Pois não - respondeu-me Quintino. - Pois não! O senhor entendeu fazer um romance de uma questão séria, que levantei pelO Paiz e começou a escrever cartas disparatadas e tolas para A Semana.

- Eu? - interroguei.

- Sim, sim, o senhor! - bradou o chefe da redação dO Paiz agarrando-me pelo braço. - O senhor! que, sem o menor escrúpulo quis fazer de um assunto sério um pretexto para novelas de mau gosto!

- Repare que me ofende!

- Qual ofende, nem meio ofende! O senhor já ouviu muito pior do Jornal do Commercio e nem por isso deu o cavaco.

- Sim, mas isso é outro caso! O Jornal não é responsável por cousa alguma. Ele não sabe o que faz, coitado!

- Em todo caso, voltando à questão, posso afirmar que o senhor não passa de um especulador que se apoderou de uma questão que lhe não pertence. O senhor nunca foi casado; nunca teve o emprego público de que falou na sua carta; nunca teve relações com a tal Jeannite de que por várias vezes tratou, e muito menos teve relações com empregados da Santa Casa de Misericórdia.

- O senhor está me ofendendo!

- Ora qual, meu amigo, um romancista nunca se pode dar por ofendido com estas coisas; um romancista é um grande mentiroso, que vive a empulhar o público com as suas patranhas. Hoje afirma que o diabo é cor do céu e amanhã jura que Deus é cor de fogo!

- Eu nunca fiz em minha vida afirmações dessa ordem!

- Se não fez dessa ordem fez piores. Leia as suas próprias obras, estude-as com atenção; verá que não é mentira o que digo.

E o Sr. Quintino, voltando-se para minha sogra, acrescentou:

- Creia, minha senhora, que falo verdade. Este homem que está ao seu lado é um intrigante, é um enredador, é finalmente um romancista!

- Eu?!

- Sim! sim, o senhor, e escusa negar. Perguntem à Folha Nova, perguntem à Gazeta de Noticias, perguntem à Gazetinha, à Gazeta da Tarde, perguntem ao próprio Jornal do Commercio, e todos esses órgãos afirmarão o que avancei.

- Estou desmoralizado! - exclamei, procurando uma saída.

Mas, à porta de entrada se haviam reunido vários reporters e homens de letras que me tolheram a passagem.

Todos riam, e eu sentia já o suor correr-me pela fronte e entranhar-se pelos mistérios do colarinho.

Afinal, vendo que assomavam à porta o Valentim, o Filinto de Almeida, o Alfredo de

Souza, o Luiz Murat, o Urbano Duarte, o Arthur Azevedo, o Alberto de Oliveira, o Raimundo Corrêa, o Dermeval da Fonseca e muitos outros rapazes conhecidos, não tive remédio senão confessar tudo e abaixar a cabeça, resignado ao que desse e viesse.

- Então! - volveu para mim o Sr. Quintino -, creio que defronte desta gente não terá o senhor a mesma petulância de querer fazer acreditar que escreveu de boa fé tais cartas para A Semana. Vamos, explique-se, senhor romancista!

- Bem! - respondi, fazendo-me pálido e puxando para trás os meus cabelos. - Bem! vou falar com franqueza. Ouçam-me com toda a atenção.

O auditório armou um grande ar de concentração; cada uma das pessoas presentes concheou a mão na orelha e inclinou-se para o meu lado. Senti-me intimidado. Bati na testa, revirei os olhos e disse:

- Meus senhores, querem encontrar a explicação de toda essa história? Querem? Pois leiam um romance que vai aparecer no rodapé dO Paiz.

- E como se há de chamar esse romance? - perguntou-me o Sr. Quintino.

- Ora faça-se de novas!* - respondi eu. - O senhor bem sabe qual é o titulo do romance que vou publicar no seu jornal.

* Fazer-se de novas - Fingir ignorar aquilo que muito bem sabe.

E, dizendo isto, dei por acabado este livro, que não é um romance, nem um tratado científico, nem um catecismo, nem um panfleto político, nem um dicionário, nem tãopouco um livro de memórias; mas simplesmente - um prêmio para os assinantes dA Semana.

FIM

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