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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Não obstante, a romântica senhora sofreu uma triste decepção ao saltar na desejada cidade. Não era o seu Nápoles que tinha defronte dos olhos; não o reconhecia; faltava-lhe fosse o que fosse — um certo pitoresco, um certo encanto, que ela, por mais que procurasse, não encontrava ali.

— Não! decididamente não era aquele o Nápoles de seus sonhos! O que ela via defronte de si era uma população agitada e desordeira, que a acotovelava grosseiramente, obrigando-a a segurar-se ao braço do marido, o qual, por mais de uma vez, esteve a cair com os encontrões que recebia de todos os lados.

— Safa! gritou o Borges, tonto. — Assim nem a praia do Peixe!

Sobre o cais e nas longas ruas agitadas, que vão a Chiaja, a Santa Luzia, à rua de Toledo, ao Forte de Sant’Elmo — o mesmo formigar, o mesmo burburinho impertinente e grosseiro.

E que confusão de pescadores, camponeses, frades, mercadores, garotos nus e lazarones de todos os feitios e de todas as cores.

— Isto parece uma cidade de doidos! observou Filomena ao marido — isto nunca foi Nápoles.

E aquela multidão irrequieta parecia justamente um bando enorme de doidos, que iam e vinham em vertigens, empurrando-se uns aos outros, metendo-se pelas pernas dos estrangeiros, invadindo-lhes a bolsa e as algibeiras com olhares de ganância, e, às vezes, com os dedos. Vendedores d'água, de frutas e de peixe, passavam a gritar como perdidos; burros carregados de legumes seguiam a trote, chocalhando guizos barulhentos; transeuntes de todos os matizes sociais, conversavam e gesticulavam agitadamente. E carruagens a galope cortavam as ruas, em várias direções, num estardalhaço febril de matracas, ferragens e campainhas. E tudo, até as casas, as árvores e as pedras da rua, pareciam gritar, mover-se, espolinhar-se num frenesi estrepitoso, sem tréguas. Filomena declarou que estava roubada!

— Qual! Pois aquilo era lá um Nápoles! Impossível! Bem longe estava de ser o Nápoles que ela queria — o seu rico Nápoles! — Aquele era um Nápoles de segunda mão! Um Nápoles pulha! Antes não tivesse lá ido! Mil vezes antes!

Que lhe mostrassem as belas cenas napolitanas, que ela vira em pequena nas litografias coloridas! Que lhe apontassem os bem conhecidos e muito pitorescos pescadores napolitanos, com as suas Calezoni, a perna nua, a faixa e o gorro vermelho, e o amuleto ao pescoço.

A excursão ao Vesúvio, como um passeio que fez à Torre d'el Greco, impressionou-a mediocremente. No Vesúvio não viu erupção de espécie alguma; não percebeu vestígios de salteadores. — A Calábria desacreditou-se para ela. Nada encontrou de tudo aquilo que reclamava a sua terrível sede de comoções

— Experimenta a tal Pompéia! aconselhou o marido, incomodado por vê-la contrariada. Pode ser que te dês bem... E lembrou também Herculanum, de cujo nome não se recordava.

— Qual Pompéia, nem qual histórias! respondeu a mulher furiosa contra os seus poetas e romancistas. Canalhas! Súcia de empulhadores!

E, muito indignada, abandonou Nápoles, para tomar a direção de Veneza, à qual sua imaginação insistia em agarrar-se como a um recurso extremo.

Mas a bela filha do Adriático, a pátria do amor e do arrepio, a sede da comoção e da poesia, a cidade dos palácios de abóbadas mouriscas a terra, enfim, das patrícias apaixonadas, também não correspondeu à expectativa de Filomena.

Lá estava a ponte triangular do Rialto; o cais dos Escravos; as cúpulas de S. Marcos; os indispensáveis pombos; as ramalheteiras, que vendem flores aos estrangeiros; os oficiosos cicerones; os gondoleiros, encapotados como monges, que passeiam tristemente por baixo das pontes; lá estava tudo isso de que constavam as notas de Filomena, mas, valha-me Deus! — nada a satisfazia, nada a saciava, nada correspondia ao que ela julgara encontrar, nada realizava o que anteviera nos seus sonhos cheios de impaciência e de sobressalto.

Passearam em carruagem de Burgano a Leco, sobre as margens do lago de Como; foram depois a Menaggio, na margem oposta, e daí partiram resolutamente para a calma Suíça, fartos de Itália, cujos nomes de grandes e pequenas cidades, aqueles mesmos que dantes arrebatavam Filomena e lhe punham no espírito uma nostalgia doce e melancólica, já nem ao menos tinham para ela a mesma sonoridade de então. Livurnia, Cività-Vechia, Chija, Bellinzona, Ischia, Gaeta, nada, nada possuía já o primitivo encanto!

E um grande vácuo abriu-se nas suas aspirações; um de seus sonhos acabava de esfacelar-se como uma nuvem dissolvida pelo vento. E Filomena, desde que se convenceu de que, se quisesse a comoção e a aventura, tinha de prepará-las por suas próprias mãos, caiu num estado sombrio de atonia e desânimo.

O Borges, sobressaltado com essas tristezas, procurava cercá-la de mil cuidados, fazia-se meigo, muito seu camarada, seu amigo, adivinhando-lhe as vontades, correndo ao encontro de seus caprichos.

— Que tens tu, meu anjo, minha vida? Fala! Conta-me tudo.

Ela, em vez de responder, atirava-se-lhe nos braços e escondia entre soluços o rosto no peito dele.

CAPÍTULO VII

O RAPTO

(continua...)

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